segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Espiões ajudaram a derrotar o Nazismo



     Espiões  ajudaram  no  fim  do  Nazismo





O arriscado, criativo e muitas vezes traiçoeiro trabalho dos agentes e espiões foi crucial para o desfecho da guerra. São heróis que, por dever de ofício, fogem dos holofotes. Um deles só foi descoberto 55 anos depois da guerra.



Há um tipo de herói cuja maior conquista é permanecer no anonimato. São os espiões. A busca por informações secretas, a amizade cínica com poderosos e a divulgação proposital de dados falsos foram ferramentas que ajudaram - e muito - a definir o destino da guerra. Tome-se o caso do catalão Juan Pujol García. Era um agente duplo, condecorado por britânicos e alemães. O espião deu a notícia errada mais importante do conflito: o local (mentiroso) onde os Aliados preparavam o desembarque que passaria à história como Dia D. Os generais alemães remanejaram suas tropas para proteger o lugar errado. E a invasão aliada foi bem-sucedida. Pujol ganhou dinheiro dos dois lados e foi gastá-lo na Venezuela. O contrário de Fritz Kolbe: o alemão, que espionou para os americanos, não levou um tostão - e nunca reclamou disso. Era tão discreto que suas ações só foram descobertas, acidentalmente, mais de meio século depois do fim da guerra.

 

O alemão que odiava Hitler 
QUEM
FRITZ KOLBE 

NASCIMENTO
BERLIM (ALEMANHA) 

ONDE ATUOU
BERNA, SUÍÇA 

POR QUE É HERÓI?
FOI O MAIOR ESPIÃO AMERICANO NA GUERRA 

O diplomata alemão Fritz Kolbe tinha aversão ao nazismo. Procurou a embaixada americana em Berna, na Suíça (um país neutro no conflito), para oferecer seus serviços. Foi aceito após ser entrevistado por Allan W. Dulles, que, no pós-guerra, seria o primeiro diretor da CIA. Revelou segredos nazistas, como os planos de deportação de judeus italianos e a construção dos temíveis foguetes V1 e V2 - dados sobre a localização das fábricas permitiram o bombardeio das instalações. 

Kolbe voltou a Berna 6 vezes durante a guerra. Repassou aos americanos mais de 1600 documentos. Um antigo diretor da CIA, Richard Helms, lembrou em sua biografia: "As informações de Kolbe foram as melhores que um agente aliado conseguiu obter durante toda a 2ª Guerra". Kolbe tentou ser reintegrado ao serviço diplomático da Alemanha Ocidental, mas muitos de seus colegas, alguns ex-nazistas, o acusaram de traição. Foi então para a Suíça, onde trabalhou como representante comercial. Morreu esquecido em 1971. Nunca recebeu nada pelo trabalho de espião. Só foi "descoberto" em 2000, graças a uma reportagem da revista Der Spiegel que revirou os arquivos da Biblioteca do Congresso americano.


"Amigo" da Gestapo era superespião judeu 
QUEM
LEOPOLD TREPPER 

NASCIMENTO
NOWY-TARG (IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO) 

ONDE ATUOU
BÉLGICA 

POR QUE É HERÓI?
LIDEROU A ORQUESTRA VERMELHA, CENTRAL DE ESPIONAGEM DE MOSCOU 

Quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha, em 1940, Jean Gilbert era aliado de Hitler. Sua empresa mantinha negócios com a máquina de guerra nazista, e ele frequentava a roda dos altos oficiais do Führer. Foi um choque para a Gestapo descobrir, durante um interrogatório em 16 de novembro de 1942, que aquele bon vivant carismático era na verdade o chefe da Orquestra Vermelha, organização de espionagem soviética. Seu nome real era Leopold Trepper. Entre 1940 e 1941, a Orquestra transmitiu informações secretas para a URSS de dentro da Alemanha e da Europa ocupada. Além de espiões tradicionais, era formada por intelectuais e acadêmicos, também envolvidos no salvamento de judeus. Trepper, judeu nascido na Polônia em 1904, usava seus negócios para obter informações e ao mesmo tempo financiar o esquema de espionagem. Quando foi preso e interrogado, recebeu proposta para se tornar agente duplo. Fingiu aceitá-la e uniu-se à Resistência Francesa. Ao voltar a Moscou, foi preso e acusado de traição. Passou 12 anos na prisão de Lubyanka, até a morte de Stálin. Reabilitado como um dos maiores espiões de todos os tempos, morreu em Israel, aos 78 anos.


O agente "D" 
QUEM
JUAN PUJOL GARCÍA 

NASCIMENTO
BARCELONA (ESPANHA) 

ONDE ATUOU
BARCELONA 

POR QUE É HERÓI?
CONVENCEU HITLER DE QUE O DESEMBARQUE DO DIA D NÃO SERIA NA NORMANDIA 

Juan Pujol García, que durante a guerra usava os codinomes Garbo (para os Aliados) e Arabal ou Alaric (para os alemães), foi um dos espiões mais bem-sucedidos do conflito. O agente duplo, nascido em Barcelona, em 1912, e morto em Caracas, em 1988, convenceu os oficiais nazistas de que a Operação Overlord, o desembarque na Normandia, era apenas uma tática diversionista. Na verdade, dizia ele, os Aliados lançariam suas tropas em Pas-de-Calais, na França. Diante da informação, o próprio Hitler retirou 4 divisões do Exército a caminho da Normandia e as deslocou para a outra região. O general Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas, destacou em seu relatório sobre a operação a importância da participação do agente duplo catalão na derrota nazista: "Se o 15º Exército alemão tivesse entrado na batalha em junho ou julho, provavelmente nos derrotaria unicamente pela quantidade e pela qualidade dos seus efetivos". Pujol queria espionar para os britânicos, mas foi recusado. Ofereceu então seus serviços aos alemães, que buscavam alguém que pudesse entrar (e espionar) no Reino Unido. Nessa época, chegou a procurar o consulado brasileiro em Madri para pedir asilo para sua família. Depois de várias recusas, conseguiu ser ouvido por espiões ingleses. Trabalhava sob a fachada de tradutor da BBC. Sua história foi contada nos livros Garbo - O Espião que Derrotou Hitler, de Javier Juárez (Relume Dumará),. e Garbo - The Spy who Saved D-Day, de Tomás Harris (inédito no Brasil). Ganhou a medalha de membro do Império Britânico (ao qual, aparentemente, de fato servia) e a Cruz de Ferro dos nazistas. Sua maior qualidade era o encanto pessoal, apesar de ser feio, baixo e calvo. Acabou seus dias falido na Venezuela. Orgulhava-se de ter sobrevivido a dois grandes conflitos - a 2ª Guerra e a Guerra Civil Espanhola - sem disparar um tiro.


Inglês inspirou 007 e escapou da corte marcial 
QUEM
PATRICK DALZEL-JOB 

NASCIMENTO
LONDRES (INGLATERRA) 

ONDE ATUOU
BODEN (NORUEGA) 

POR QUE É HERÓI?
SALVOU OS 2500 MORADORES DA CIDADE DE UM BOMBARDEIO NAZISTA 

Ao noticiar a morte de Patrick Dalzel-Job, em 2003, os jornais ingleses afirmaram que ele era o mais provável modelo do escritor Ian Fleming para criar o agente James Bond (outras inspirações teriam sido David Scherr, líder do MI5, o serviço de inteligência britânico, e o sérvio Dusan "Dusko" Popov). Fleming e Job fizeram parte do Comando 30, grupo que coletava segredos da inteligência alemã. Nasceu em Londres em 1916. Aos 24 anos, alistou-se na Marinha inglesa e foi encarregado de organizar o desembarque aliado na Noruega, país onde morava até o início da guerra. Além das múltiplas habilidades (era velejador, mergulhador e paraquedista), seu nome é associado a 007 também por esse feito. Em 1940, os alemães resolveram bombardear a cidade de Boden, no país nórdico. Sabendo desse plano, Job montou uma operação de salvamento por conta própria, à revelia do almirantado britânico. Levou os 2500 habitantes de Boden de barco para outra cidade. Salvou a população local, mas sua insubordinação o levou à corte marcial. O rei norueguês Haakon 7º, no exílio em Londres, intercedeu por ele e o condecorou por heroísmo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Queda de Gigantes - Romance da Primeira Guerra Mundial

Li  o  livro  Queda  de  Gigantes  de  Ken  Follet,  um  romance  histórico  extraordinário,  que  defende  a  queda  dos   grandes  impérios  da  época,   como  a  maior  transformação  que  a  Primeira  Guerra  havia  proporcionado.

imagem principal

Queda de Gigantes

Sinopse

Como em todas as obras de Follett, o contexto histórico foi pesquisado e reproduzido com minúcias, ensinando-nos mais do que o que aprendemos na escola. E, o que é melhor, por meio de uma trama fascinante, com um ritmo de tirar o fôlego e personagens tão ricos que mereciam ter realmente existido.
A trama começa no início do século XX e acompanha a saga de cinco famílias de diferentes origens sociais e nacionalidades que vão vivenciar os acontecimentos que abalarão o mundo, como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a ascensão da classe trabalhadora e a luta pelo voto feminino.
Numa narrativa repleta de paixão, aventura e suspense, Follett cria personagens inesquecíveis que, ao perseguir seus sonhos e escolher o rumo de suas vidas, ajudam a fazer história.
Queda de Gigantes é o primeiro livro da trilogia, e enfoca o período que engloba a Primeira Guerra e a Revolução Russa. Mesmo sendo obrigado a percorrer quase mil páginas, o leitor se deslumbra com o cenário histórico meticulosamente reconstituído, com os diferentes e fascinantes personagens que desfilam ao longo da trama, e a leitura flui com leveza e naturalidade.
A história conta com pelo menos oito protagonistas: dois irmãos que integram a nobreza inglesa, um diplomata da Alemanha, um assessor do presidente dos Estados Unidos, dois operários russos unidos por laços de irmandade, e dois membros de uma família de mineradores ingleses.
Billy Williams é o garoto de 13 anos que ingressa no universo masculino ao começar a trabalhar como minerador na Gália; Gus Dewar é o aluno da Faculdade de Direito dos EUA que só encontra infortúnios no campo afetivo, mas é bem-sucedido profissionalmente. Girgori e Lev Peshkov são os irmãos russos que não têm pais e, buscando melhores perspectivas, tentam partir para a América do Norte, mas seus planos são frustrados pela deflagração do confronto bélico mundial e da Revolução.
Estas são algumas das figuras carismáticas que oferecem ao leitor uma visão particular sobre este período histórico, das causas que conduziram o continente europeu a uma trágica confrontação, às profundas mudanças sociais que abalaram este momento vivido pelo Planeta.
Embora estes personagens sejam, por si mesmos, admiráveis, eles são facilmente superados por duas mulheres que integram a galeria de seres que terão suas existências entrecruzadas neste enredo dramático. Ethel e Maud integram a vanguarda de seu tempo, são vigorosas, seguras, confiantes e protagonistas de histórias impressionantes. Um exemplo da determinação de ambas é sua participação na reivindicação do voto feminino.
Estas criações fictícias navegam pela trama ao lado de personagens históricas e, assim, possibilitam ao leitor uma compreensão mais profunda da época aqui representada. Eles circulam por cenários como Washington e São Petersburgo, as sombrias e sórdidas minas de carvão e a decoração suntuosa dos palácios, os bastidores do poder e os aposentos íntimos dos detentores da fortuna.
Kenneth Martin Follett, mais conhecido como Ken Follett, é um escritor nascido no País de Gales em 1949. Graduado em Filosofia, iniciou sua trajetória profissional como jornalista e não demorou muito para que ele se aventurasse no campo literário. Sua primeira obra-prima foi O Buraco da Agulha, vencedor do prêmio Edgar Award de melhor romance de 1978. O segundo volume da saga O Século será lançado apenas em 2012, e o último vai ser publicado em 2014.

Biografia do autor

 

Kenneth Martin Follett é um escritor britânico nascido no País de Gales, em 1949 em Cardiff autor de thrillers e romances históricos. Follett vendeu milhões de cópias de seus trabalhos. Quatro de seus livros alcançaram número um no ranking de best-sellers do New York Times: Triângulo (1979), A Chave de Rebeca (1980), O Vale dos 5 Leões (1986) e Mundo Sem Fim (2007). É formado em Filosofia pela University College, de Londres, começou sua carreira como jornalista, primeiro no South Wales Echo e, depois, no Evening Standard de Londres. Logo em seguida passou a escrever pequenos contos nos finais de semana, e, encorajado por amigos e colegas de profissão que admiravam seus escritos, passou a escrever romances.
Confira  o  Primeiro  Capítulo  do  Livro

22 de junho de 1911
No mesmo dia em que Jorge V foi coroado rei na Abadia de Westminster, em Londres, Billy Williams desceu até as profundezas da mina de Aberowen, na região de Gales do Sul.
Era 22 de junho de 1911 e Billy fazia 13 anos. Foi seu pai quem o acordou. A técnica de Da para despertar os outros era mais eficaz do que delicada. Ele dava tapinhas ritmados na bochecha, com firmeza e insistência. Naquele dia, Billy dormia profundamente e tentou ignorar os tapinhas por alguns instantes, mas eles continuaram sem trégua. O menino sentiu uma raiva passageira, mas daí se lembrou de que precisava acordar, queria acordar, então abriu os olhos e se sentou com um sobressalto. – São quatro horas – falou Da, saindo do quarto, suas botas ecoando nos degraus de madeira enquanto descia a escada.
Billy estava prestes a começar sua vida profissional como aprendiz de mineiro, tal qual a maioria dos homens do lugar havia feito naquela idade. Não se sentia tão minerador quanto gostaria, mas estava decidido a não dar vexame. Em seu primei- ro dia na mina, David Crampton havia chorado, e até hoje todos o chamavam de Dai Chorão, embora ele já tivesse 25 anos e fosse a estrela do time de rúgbi da cidade.
O solstício de verão fora na véspera, e uma luz fraca do início da manhã entrava pela pequena janela do quarto. Billy olhou para o avô deitado ao seu lado. Os olhos de Gramper estavam abertos. Sempre que Billy acordava, ele já estava desperto. Dizia que os velhos não dormiam muito.
Billy saiu da cama. Estava só de cueca. No frio, dormia de camisa, mas aquele verão estava quente, e à noite a temperatura ficava amena. Ele puxou o penico de baixo da cama e tirou a tampa.
O tamanho de seu pênis não havia mudado. Continuava o mesmo cotoquinho de sempre. Tinha esperanças de que ele poderia ter começado a crescer na noite anterior ao seu aniversário, ou que talvez fosse ver um único pelo preto brotan- do em algum lugar por ali, mas ficou desapontado. Seu melhor amigo, Tommy Griffiths, que nascera no mesmo dia que ele, era diferente: sua voz estava mudando e uma penugem escura crescia sobre o lábio superior. Além disso, o pinto dele era de homem. Era humilhante.
Enquanto usava o penico, Billy olhou pela janela. Tudo o que viu foi a pilha de escória, uma montanha cor de ardósia feita de resíduos, o refugo da mina de carvão, composto principalmente de xisto e arenito. Era assim que o mundo devia ser no segundo dia da Criação, pensou Billy, antes de Deus dizer: “Que da terra brote a relva.” Uma brisa suave soprava a poeira fina e negra da pilha de escória em direção às fileiras de casas.
Dentro do quarto, havia menos ainda para se ver. Era um cômodo de fundos, um espaço estreito em que mal cabia a cama de solteiro, uma cômoda e o velho baú de Gramper. Na parede, havia um bordado com o dizer:
CRÊ NO SENHOR JESUS CRISTO E TERÁS A SALVAÇÃO
Não havia espelho.
Uma das portas conduzia ao alto da escada, a outra ao quarto da frente, no qual só se podia entrar passando pelo dos fundos. Esse segundo quarto era maior e tinha espaço para duas camas. Era onde dormiam Da e Mam e onde também costumavam dormir, anos atrás, as irmãs de Billy. A mais velha, Ethel, já não morava ali e as outras três tinham morrido – uma de sarampo, outra de coqueluche e a terceira de difteria. Houvera também um irmão mais velho, que dividia a cama com Billy antes de Gramper chegar. Ele se chamava Wesley e tinha morrido na mina, atropelado por um pequeno vagão desgovernado que transportava carvão.
Billy vestiu a camisa. A mesma que usara para ir à escola na véspera. Era quinta-feira, e ele só trocava de camisa aos domingos. Mas a calça era nova, sua primeira calça comprida, feita de algodão grosso e impermeável. Ela simbolizava seu ingresso no mundo dos homens e Billy a vestiu com orgulho, saboreando a aspereza máscula do tecido. Pôs um cinto de couro pesado, calçou as botas herdadas de Wesley e desceu a escada.
A maior parte do térreo era ocupada pela sala de 20 metros quadrados, com uma mesa no meio, uma lareira em uma das laterais e um tapete feito à mão sobre o piso de pedra. Da estava sentado à mesa, lendo uma edição antiga do Daily Mail, com os óculos empoleirados no nariz comprido e afilado. Mam pre- parava chá. Ela pousou a chaleira fumegante, beijou a testa do filho e disse:
– Como está meu homenzinho no dia do seu aniversário?
Billy não respondeu. O diminutivo o magoava porque ele era realmente pequeno, e o substantivo “homem” também o incomodava, pois sabia que ainda não era um. Ele foi até a área de serviço, nos fundos da casa. Mergulhou uma lata no barril de água, lavou o rosto e as mãos e descartou a água suja na pia rasa de pedra. A área tinha um caldeirão de cobre com um braseiro embaixo, mas ele só era usado nas noites de banho, aos sábados.
Eles esperavam ter água encanada em breve, como lhes fora prometido. Alguns dos mineradores já tinham. Para Billy, parecia um milagre as pessoas poderem obter um copo de água fresca e limpa simplesmente abrindo a torneira, sem ter que carregar um balde até a bica da rua. Mas a água encanada ainda não havia chegado a Wellington Row, onde ficava a casa dos Williams.
Ele voltou para a sala e se sentou à mesa. Mam depositou na sua frente uma xícara grande de chá com leite, já adoçado. Cortou duas fatias grossas de pão caseiro e foi buscar banha na despensa debaixo da escada. Billy uniu as mãos, fechou os olhos e disse:
– Obrigado Senhor por esta comida amém. – Então tomou um gole de chá e passou a banha no pão. Os olhos azul-claros de Da espiaram por cima do jornal. – Ponha sal no pão – disse ele. – Você vai suar lá embaixo. O pai de Billy trabalhava para a Federação dos Mineradores de Gales do Sul, o sindicato mais influente da Grã-Bretanha, como ele fazia questão de dizer em qualquer oportunidade. Era conhecido como Dai do Sindicato. Dai, diminutivo de David, ou Dafydd em galês, era o apelido de muitos homens. Billy tinha aprendido na escola que David era popular no País de Gales por ser o nome de seu santo padroeiro, assim como Patrick era comum na Irlanda por conta de São Patrício. Os Dais eram diferenciados uns dos outros não pelo sobrenome – quase todo mundo na cidade se chamava Jones, Williams, Evans ou Morgan, mas sim pelo apelido. Quando havia uma alternativa engraçada, os nomes verdadeiros quase nunca eram usados. O nome de Billy era William Williams, então os outros o chamavam de Billy Duplo. As mulheres às vezes ganhavam o apelido do marido, de modo que Mam era conhecida como Sra. Dai do Sindicato.
Gramper desceu quando Billy estava comendo a segunda fatia de pão. Apesar do calor que fazia, usava paletó e colete. Depois de lavar as mãos, sentou-se à mesa em frente ao neto.
– Não fique tão nervoso – falou. – Eu desci para a mina quando tinha 10 anos. E o meu pai foi carregado para lá nas costas do pai dele aos 5 anos, sendo que trabalhava das seis da manhã às sete da noite. De outubro a março, ele não via a luz do dia.
– Eu não estou nervoso – disse Billy. Não era verdade. Estava morrendo de medo.
Mas Gramper, bondoso como era, não insistiu. Billy gostava do avô. Mam trata- va o filho como um bebê, e Da era ríspido e sarcástico, mas Gramper se mostrava tolerante e conversava com o neto como se ele fosse adulto.
– Ouçam só isso – falou Da. Ele nunca comprava o Mail, um jornaleco de direita, mas às vezes trazia o de alguém para casa e lia em voz alta com desprezo, zombando da estupidez e da desonestidade da classe dominante. – “Lady Diana Manners foi criticada por usar o mesmo vestido em dois bailes diferentes. A filha caçula do duque de Ruthland ganhou o prêmio de ‘melhor traje feminino’ no Baile do Savoy por seu corpete tomara que caia com barbatanas e saia-balão, recebendo o valor de 250 guinéus.” – Ele baixou o jornal e disse para Billy: – Isso, meu garoto, representa no mínimo cinco anos do seu salário. – Então prosseguiu: – “Mas ela atraiu a reprovação dos especialistas ao usar o mesmo vestido na festa de lorde Winterton e F.E. Smith no Hotel Claridge. Até o que é bom enjoa, foi o que disseram.” – Ele ergueu os olhos do jornal. – É melhor trocar de vestido, Mam – disse ele. – Não vai querer atrair a reprovação dos especialistas.
Mam não achou graça. Estava usando um vestido velho de lã marrom, com remendos nos cotovelos e manchas nas axilas.
– Se eu tivesse 250 guinéus, ficaria mais bonita do que a sebosa dessa lady Diana – comentou, não sem uma certa amargura.
– Verdade – concordou Gramper. – Cara sempre foi a mais bonita... igualzi- nha à mãe. – Cara era o nome de Mam. Gramper se virou para Billy. – A sua avó era italiana. O nome dela era Maria Ferrone. – Billy já sabia disso, mas o avô gos- tava de recontar histórias conhecidas. – Foi daí que saíram os cabelos pretos e lustrosos e os lindos olhos escuros da sua mãe... e os da sua irmã também. Sua avó era a moça mais linda de Cardiff... e quem a conquistou fui eu! – De repen- te, ele pareceu triste. – Bons tempos – disse baixinho.
Da franziu o cenho em sinal de reprovação – esse tipo de conversa trazia à mente os prazeres da carne –, mas Mam ficou alegre com os elogios do pai e sor- riu ao lhe servir o desjejum.
– Ah, é – falou. – Eu e minhas irmãs éramos tidas como beldades. Se tivéssemos dinheiro para seda e renda, mostraríamos a esses duques o que é uma moça bonita.
Billy ficou surpreso. Nunca tinha pensando na mãe como sendo bonita ou feia, embora ela ficasse bastante vistosa quando se vestia para os encontros de sábado à noite na igreja, especialmente se colocasse um chapéu. Achava que ela até poderia ter sido uma moça bonita um dia, porém era difícil de imaginar.
– Mas a família da sua avó era inteligente também – disse Gramper. – Meu cunhado era minerador, mas largou o ramo para abrir um café em Tenby. Isso sim que é vida: a brisa do mar e nada para fazer o dia todo a não ser preparar café e contar dinheiro.
Da leu outra notícia:
– “Como parte dos preparativos para a coroação, o Palácio de Buckingham criou um manual de instruções de 212 páginas.” – Ele olhou por cima do jornal. – Comente isso lá na mina hoje, Billy. O pessoal vai ficar aliviado quando souber que nada foi deixado ao acaso.
Billy não tinha muito interesse pela realeza. Gostava, isso sim, das histórias de aventura que o Mail costumava publicar sobre jogadores de rúgbi durões de escolas particulares que capturavam espiões alemães sorrateiros. Segundo o jornal, todas as cidades da Grã-Bretanha estavam infestadas de espiões, embora, para decepção do garoto, não parecesse haver nenhum em Aberowen.
Billy se levantou da mesa.
– Vou descer a rua – anunciou. Então saiu de casa pela porta da frente. “Descer a rua” era um eufemismo da família: significava ir ao banheiro, que ficava mais adiante na Wellington Row. Era uma cabana baixa de tijolos com telhado de ferro corrugado, erguida sobre um buraco fundo na terra. A cabana era dividida em dois compartimentos, um masculino e um feminino. Cada um deles tinha dois assentos, para que as pessoas fizessem suas necessidades em duplas. Ninguém sabia por que os construtores tinham escolhido esse modelo, mas todos se adap- tavam como podiam. Os homens ficavam olhando direto para a frente, sem dizer nada, mas – como Billy muitas vezes escutava – as mulheres conversavam ani- madamente. O cheiro era sufocante, mesmo quando você o sentia todos os dias da sua vida. Billy sempre tentava respirar o mínimo possível quando estava lá dentro, e saía arquejando em busca de ar. O buraco era esvaziado periodicamente com uma pá por um homem chamado Dai da Fossa. Quando Billy voltou, ficou encantado ao ver a irmã Ethel sentada à mesa.
– Parabéns, Billy! – exclamou ela. – Não podia deixar de vir lhe dar um beijo antes de você descer à mina.
Ethel tinha 18 anos e Billy não tinha a menor dificuldade em considerá-la bonita. Seus cabelos cor de mogno exibiam cachos irrepreensíveis e seus olhos escuros emitiam um brilho travesso. Talvez Mam tivesse sido daquele jeito um dia. Ethel usava o vestido preto simples e a touca branca de algodão de uma cria- da, uma roupa que lhe caía bem.
Billy idolatrava Ethel. Além de bonita, ela era engraçada, inteligente e corajosa, e às vezes chegava até a enfrentar Da. Falava com Billy sobre coisas que ninguém mais queria falar, como, por exemplo, aquele acontecimento mensal que as mulheres chamavam de maldição. Também lhe explicara o que significava o crime de atentado ao pudor que levara o pastor anglicano a sair da cidade com tanta pressa. Durante toda a vida escolar, ela havia sido a primeira da turma, e seu ensaio “Minha cidade ou minha aldeia” ficara em primeiro lugar em um concurso organizado pelo jornal South Wales Echo. Seu prêmio foi um exemplar do Atlas Mundial Cassell.
Ethel beijou o irmão na bochecha.
– Eu disse à Sra. Jevons, a governanta, que a graxa para botas estava acabando e era melhor eu ir comprar mais na cidade. – Ethel morava e trabalhava em Tŷ Gwyn, a imensa propriedade do conde Fitzherbet, que ficava quase dois quilô- metros montanha acima. Entregou a Billy algo embrulhado em um pano limpo. – Roubei um pedaço de bolo para você.
– Ah, Eth, obrigado! – agradeceu Billy. Ele adorava bolo. – Quer que eu ponha na sua marmita? – perguntou Mam. – Quero, por favor. Mam pegou um recipiente de lata no armário e pôs o bolo lá dentro.
Cortou mais duas fatias de pão, passando banha e salpicando um pouco de sal nelas antes de guardá-las na marmita. Todos os mineradores tinham a sua marmita de lata. Se levassem para a mina comida enrolada em um pano, os ratos a comeriam antes do intervalo do meio da manhã.
– Quando você me trouxer o seu salário, vai poder levar uma fatia de toucinho cozido na marmita. – disse Mam.
O salário de Billy não seria grande coisa no começo, mas mesmo assim faria diferença para a família. Ele se perguntou com quanto Mam o deixaria ficar, e se algum dia ele conseguiria economizar o suficiente para comprar uma bicicleta, que desejava mais do que tudo na vida.
Ethel sentou-se à mesa. – Como andam as coisas no casarão? – perguntou-lhe Da. – Tranquilas – respondeu ela. – O conde e a princesa estão em Londres para assistir à coroação. – Ela olhou para o relógio sobre a lareira. – Eles devem acordar daqui a pouco... precisam chegar bem cedo na abadia. Ela não vai gostar, não está acostumada a sair da cama a esta hora, mas não pode se atrasar para o rei. – A mulher do conde, Bea, era uma princesa russa, e muito distinta.
– Eles vão querer pegar lugares na frente para não perderem o espetáculo – falou Da.
– Oh, não, você não pode sair sentando onde quiser – disse Ethel. – Eles mandaram fazer 600 cadeiras especiais de mogno, com os nomes dos convidados gra- vados no encosto em letras de ouro.
– Ora, mas que desperdício! – comentou Gramper. – O que vão fazer com essas cadeiras depois?
– Não sei. Talvez cada um leve a sua para casa de lembrança.
– Se sobrar alguma, peça para eles mandarem para cá – falou Da com sarcas- mo. – Somos apenas cinco aqui e sua mãe já teve que ficar em pé.
Por trás das brincadeiras de Da, sempre podia haver raiva de verdade. Ethel pulou da cadeira.
– Oh, perdão, Mam, nem me dei conta. – Fique aí, estou ocupada demais para me sentar – disse Mam. O relógio bateu cinco horas. – Billy – falou Da –, é melhor você chegar lá cedo. Para mostrar desde agora como pretende trabalhar. Billy se pôs de pé, relutante, e pegou sua marmita. Ethel tornou a beijá-lo e Gramper apertou sua mão. Da lhe entregou dois pregos de 15 centímetros, enferrujados e um pouco tortos. – Guarde isso no bolso da calça. – Pra quê? – quis saber Billy. – Você vai ver – respondeu Da com um sorriso. Mam entregou a Billy uma garrafa de um litro com tampa de rosca cheia de chá gelado com leite e açúcar. – Billy – disse ela –, lembre-se de que Jesus está sempre ao seu lado, mesmo la no fundo da mina. – Sim, Mam. Ele pôde ver uma lágrima no olho da mãe e virou o rosto depressa, pois aquilo lhe dava vontade de chorar também. Apanhou sua boina no gancho. – Bem, até logo – falou, como se estivesse simplesmente indo para a escola.
Depois saiu pela porta da frente. Até então, o verão tinha sido quente e ensolarado, mas aquele dia estava nublado, parecendo até que poderia chover. Tommy estava encostado na parede externa da casa, esperando.
– Oi, Billy – disse ele. – Oi, Tommy. Os dois puseram-se a descer a rua lado a lado. Billy aprendera na escola que antigamente Aberowen era uma pequena cidade-mercado, que atendia aos agricultores das redondezas. Do alto da Wellington Row era possível ver o antigo centro comercial, com os currais abertos do mercado de gado, o prédio onde se fazia o comércio da lã e a igreja anglicana, todos na mesma margem do rio Owen, que mal passava de um córrego. Agora uma fer- rovia cortava a cidade ao meio como uma ferida, indo acabar na entrada da mina. As casas dos mineradores haviam se espalhado pelas encostas do vale acima, centenas de casinhas de pedra cinzenta com telhados de ardósia galesa de um cinza mais escuro. As construções formavam longas fileiras sinuosas que acompanhavam os contornos das encostas. Essas fileiras, por sua vez, eram cortadas por ruas mais curtas que mergulhavam em direção ao fundo do vale.
– Com quem você acha que vamos trabalhar? – perguntou Tommy.
Billy deu de ombros. Os recém-chegados costumavam ser despachados para um dos subgerentes da mina.
– Só vendo.
– Espero que me ponham nas estrebarias. – Tommy gostava de cavalos. Na mina viviam cerca de 50 pôneis. Os animais puxavam os vagões que os mineiros enchiam e os transportavam por trilhos ferroviários. – Que tipo de trabalho você quer fazer?
Billy estava torcendo para não lhe confiarem uma tarefa árdua demais para seu físico infantil, embora não estivesse disposto a admiti-lo.
– Lubrificar os vagões – respondeu ele. – Por quê? – Porque parece fácil. Os dois passaram pela escola que, no dia anterior, haviam frequentado como alunos. Era um prédio vitoriano, com janelas pontiagudas feito as de uma igreja. Fora construída pela família Fitzherbert, como o diretor nunca se cansava de lembrar aos alunos. O conde até hoje nomeava os professores e estabelecia o currículo. Quadros nas paredes retratavam vitórias militares heroicas, e a gran- deza da Grã-Bretanha era um tema constante. Na aula de religião, sempre a pri- meira do dia, ensinavam-se doutrinas estritamente anglicanas, embora quase todas as crianças pertencessem a famílias não conformistas. A escola tinha um comitê diretor do qual Da fazia parte, mas cujos poderes se limitavam aos de um conselho. Da costumava dizer que o conde tratava a escola como sua pro- priedade particular.
Em seu último ano, Billy e Tommy haviam aprendido os princípios da minera- ção, enquanto as meninas aprendiam a costurar e cozinhar. Billy ficara surpreso ao descobrir que o chão que ele pisava era formado por várias camadas de diferen- tes tipos de terra, como uma pilha de sanduíches. Um veio de carvão – expressão que havia escutado a vida inteira sem entender direito – era uma dessas cama- das. Ele também aprendera que o carvão era composto de folhas mortas e outras matérias vegetais acumuladas ao longo de milhares de anos e comprimidas pelo peso da terra acima delas. Tommy, cujo pai era ateu, dizia que isso provava que a Bíblia estava errada; mas o pai de Billy afirmava que essa era apenas uma das interpretações possíveis.
A escola estava vazia àquela hora, seu pátio deserto. Billy sentia orgulho de tê-la deixado para trás, embora parte dele desejasse poder voltar para lá em vez de descer à mina.
Conforme eles foram se aproximando da entrada da mina, as ruas começaram a se encher de mineradores, cada qual com sua marmita e sua garrafa de chá. Estavam todos vestidos da mesma forma, com ternos velhos que iriam despir assim que chegassem ao local de trabalho. Algumas minas eram frias, mas a de Aberowen era quente, e nela os homens trabalhavam de roupa de baixo e botas, ou então usando calções de linho grosseiro. Todos usavam uma boina acolchoada o tempo todo, pois os tetos dos túneis eram baixos e era fácil bater com a cabeça.
Por sobre as casas, Billy conseguia ver o guindaste, uma torre encimada por duas grandes rodas que giravam em direções opostas e acionavam os cabos que baixavam e erguiam o elevador. Era possível ver estruturas de mineração seme- lhantes pairando sobre a maioria das cidades dos vales de Gales do Sul, da mesma forma que os campanários das igrejas dominavam as aldeias de agricultores.
Outras construções se espalhavam em volta da entrada da mina como se houvessem sido largadas ali por acidente: o paiol de lamparinas, o escritório da empresa de mineração, o ferreiro, os depósitos. Trilhos serpeavam por entre os prédios. No terreno baldio, havia vagões quebrados, vigas de madeira velhas e rachadas, sacos de aniagem e pilhas de máquinas enferrujadas e sem uso, tudo coberto por uma camada de pó de carvão. Da sempre dizia que haveria menos acidentes se os mineiros mantivessem as coisas arrumadas.
Billy e Tommy foram até o escritório da mineradora. Na sala da frente, traba- lhava um auxiliar de escritório pouco mais velho do que eles, Arthur Llewellyn “Espinhento”, que vestia uma camisa branca com o colarinho e os punhos encardidos. Os dois estavam sendo aguardados – seus pais já haviam combinado que começariam a trabalhar naquele dia. Espinhento anotou seus nomes em um livro-razão e, em seguida, levou-os até a sala do gerente.
– Os jovens Tommy Griffiths e Billy Williams, Sr. Morgan – anunciou.
Maldwyn Morgan era um homem alto e vestia um terno preto. Não havia pó de carvão nos punhos de sua roupa. Suas bochechas rosadas eram lisas, o que significava que ele devia se barbear diariamente. Seu diploma de engenheiro pendia emoldurado da parede, e o chapéu-coco – outro símbolo de seu status – estava à mostra no cabideiro junto à porta.
Para surpresa de Billy, o gerente não estava sozinho. Ao seu lado, havia um homem ainda mais impressionante: Perceval Jones, presidente da Celtic Minerals, dona e administradora da mina de carvão de Aberowen e de várias outras. Era um homem baixo, agressivo, que os mineradores chamavam de Napoleão. Usava trajes formais, um fraque preto e calça cinza listrada, e não havia tirado a cartola preta alta.
Jones olhou para os meninos com aversão. – Griffiths – disse ele. – Seu pai é um socialista revolucionário. – Sim, Sr. Jones – respondeu Tommy. – E, além disso, ateu. – Sim, Sr. Jones. Ele então olhou para Billy. – E o seu pai tem um cargo importante na Federação dos Mineradores de Gales do Sul. – Sim, Sr. Jones. – Eu não gosto de socialistas. Os ateus estão fadados à danação eterna. E os sindicalistas são os piores de todos. Ele os fuzilava com o olhar, mas aquilo não era uma pergunta, então Billy continuou calado. – Não quero arruaceiros aqui – continuou Jones. – No vale de Rhondda, os mineradores estão em greve há 43 semanas, atiçados por gente como seu pai. Billy sabia que a greve no vale de Rhondda não tinha sido causada por arrua- ceiros, mas pelos proprietários da mina Ely, em Penygraig, que a haviam fechado para que os mineradores não pudessem trabalhar. Porém ficou de bico calado. – Vocês são arruaceiros? – perguntou Jones, apontando um dedo ossudo para Billy e fazendo-o tremer. – Seu pai lhe disse para você defender seus direitos enquanto estiver trabalhando para mim? Billy tentou pensar, embora fosse difícil diante da figura ameaçadora de Jones.
Da não tinha dito muita coisa naquela manhã, mas na noite anterior lhe dera alguns conselhos.
– Senhor, com sua licença, ele me disse: “Não enfrente os patrões, esse é o meu trabalho.”
Atrás dele, Llewellyn Espinhento abafou uma risadinha. Perceval Jones não achou graça.
– Selvagem insolente – disse ele. – Mas, se eu mandar você embora, este vale inteiro vai entrar em greve.
Billy não tinha pensado nisso. Será que ele era tão importante assim? Não... mas talvez os mineradores entrassem em greve partindo do princípio de que os filhos de seus representantes não deveriam ser punidos. Estava trabalhando há menos de cinco minutos e o sindicato já o estava protegendo.
– Tirem esses meninos daqui – disse Jones. Morgan aquiesceu. – Leve-os lá para fora, Llewellyn – falou ele. – Rhys Price pode cuidar deles. Em seu íntimo, Billy soltou um gemido. Rhys Price era um dos subgerentes mais temidos. No ano anterior, ele havia flertado com Ethel, que o rejeitara no ato. Sua irmã agira da mesma forma com metade dos homens solteiros de Aberowen, mas Price tinha ficado muito abalado.
Espinhento fez um gesto brusco com a cabeça. – Chispem – disse, saindo atrás deles. – Aguardem o Sr. Price lá fora. Billy e Tommy saíram do escritório e se recostaram na parede ao lado da porta. – Quem me dera dar um soco naquela barriga gorda do Napoleão – disse Tommy. – Que capitalista nojento. – É – disse Billy, embora nem sequer tivesse pensado nisso. Um minuto depois, Rhys Price apareceu. Como todos os subgerentes, usava um chapéu baixo de copa redonda, mais caro do que uma boina de minerador, porém mais barato do que um chapéu-coco. Trazia um bloco de anotações e um lápis no bolso do colete e segurava um metro na mão. A barba por fazer e um vão entre os dentes da frente marcavam suas feições. Billy sabia que ele era inteligente, mas ardiloso.
– Bom dia, Sr. Price – cumprimentou Billy. Price fez cara de desconfiado. – Que história é essa de me dar bom dia, Billy Duplo? – O Sr. Morgan disse que a gente vai descer à mina com o senhor. – Foi mesmo? – Price tinha a mania de lançar olhares rápidos de um lado para outro e, às vezes, para trás, se pressentisse encrenca vindo de alguma direção des- conhecida. – Isso nós vamos ver. – Então olhou para o guindaste, como se ele pudesse lhe dar uma explicação. – Não tenho tempo para cuidar de moleques. – Dito isso, entrou no escritório.
– Espero que ele chame outra pessoa para descer com a gente – disse Billy. – Ele detesta a minha família porque minha irmã não quis namorar com ele.
– A sua irmã se acha boa demais para os homens de Aberowen – falou Tommy, obviamente repetindo algo que havia escutado alguém dizer.
– Ela é boa demais para os homens de Aberowen – disse Billy com altivez. Price saiu do escritório. – Muito bem, por aqui – falou, seguindo em frente a passos largos. Os dois meninos o acompanharam até o paiol das lamparinas. O homem que trabalhava ali entregou a Billy uma lamparina de segurança, feita de latão, que ele prendeu ao cinto como faziam os demais.
Ele havia aprendido na escola sobre as lamparinas dos mineradores. Um dos perigos da mineração do carvão era o metano, um gás inflamável que vazava dos veios de carvão. Os homens o chamavam de grisu, e ele era a causa de todas as explosões subterrâneas. As minas galesas eram conhecidas por terem muito dessa substância. A lamparina era engenhosamente concebida de modo que sua chama não inflamasse o grisu. Na verdade, a chama mudava de formato e se alongava, dando assim um alerta – pois o metano não tinha cheiro.
Caso a lamparina se apagasse, os mineradores não conseguiam reacendê-la sozinhos. Era proibido portar fósforos no interior da mina, e a lamparina ficava lacrada para desencorajá-los a burlar essa regra. Uma lamparina apagada precisa- va ser levada até um ponto de acendimento, que em geral ficava no fundo da mina, junto ao poço. Isso podia acarretar uma caminhada de quase dois quilômetros, ou mais, mas valia a pena para evitar o risco de uma explosão subterrânea.
Na escola, os meninos haviam aprendido que a lamparina de segurança era uma das maneiras de os donos das minas demonstrarem seu zelo e preocupação para com os empregados – “como se os patrões não tirassem nenhum proveito do fato de evitarem explosões, interrupções no trabalho e danos aos túneis”, dizia Da.
Depois de pegarem as lamparinas, os homens faziam fila para o elevador. Estrategicamente posicionado ao lado da fila, havia um quadro de avisos. Cartazes escritos à mão ou impressos de forma grosseira anunciavam treinos de críquete, uma partida de dardos, um canivete perdido, um recital do Coral Masculino de Aberowen e uma palestra sobre a teoria do materialismo histórico de Karl Marx na Biblioteca Livre. Os subgerentes, no entanto, não precisavam esperar na fila, de modo que Price abriu caminho aos empurrões até a frente dela, com os meni- nos em seu encalço.
Como a maioria das minas, Aberowen tinha dois poços, com ventiladores posicionados para forçarem o ar a descer por um e subir pelo outro. Os donos das minas muitas vezes batizavam os poços com nomes extravagantes, e os dali se chamavam Píramo e Tisbe. O poço em que estavam, Píramo, era por onde o ar subia, e Billy podia sentir a corrente de ar morno que brotava da mina.
No ano anterior, Billy e Tommy tiveram a ideia de olhar para dentro do poço.
Na segunda-feira após o domingo de Páscoa, quando os homens estavam de folga, eles driblaram o vigia e se esgueiraram pelo terreno baldio até a entrada da mina, escalando em seguida a cerca de proteção. A boca do poço não estava totalmente tampada pela cabine do elevador, então eles se deitaram de bruços e olharam pela borda. Ficaram encarando aquele buraco terrível com um fascínio mórbido, e Billy sentiu um frio na barriga. A escuridão parecia infinita. Teve uma sensação que era metade de alegria, por não ter que descer até as profundezas, e metade de terror, porque um dia seria obrigado a fazê-lo. Chegou a jogar uma pedra lá dentro, e os dois a escutaram ricochetear entre o trilho de madeira que guiava o elevador e o revestimento de tijolos do poço. O tempo que a pedra levou para fazer seu barulho fraco e distante ao atingir a poça d’água no fundo lhes pareceu aterrorizante de tão longo.
Agora, um ano depois, ele estava prestes a seguir o mesmo trajeto daquela pedra.
Disse a si mesmo para deixar de ser covarde. Precisava agir como homem, mesmo que não se sentisse assim. O pior de tudo seria arruinar sua reputação. Tinha mais medo disso que de morrer.
Ele podia ver a grade deslizante que fechava o poço. Para além dela, havia apenas espaço vazio, pois o elevador ainda estava subindo. Do outro lado do vão, via também o cabrestante que fazia girar as rodas grandes lá no alto. Jatos de vapor escapavam do mecanismo. Os cabos batiam em suas correias com um barulho de chicote. Um cheiro de óleo quente pairava no ar.
Com um estrondo metálico, o elevador vazio surgiu atrás da grade. O sinaleiro responsável pelo elevador ali em cima abriu o gradeado. Rhys Price entrou na cabine vazia, seguido pelos dois meninos. Treze mineradores entraram depois deles – o elevador tinha capacidade para 16 homens. O sinaleiro fechou a grade com força.
Houve um intervalo. Billy se sentiu vulnerável. O chão sob seus pés era sólido, mas ele poderia, sem muita dificuldade, se espremer por entre as barras espaçadas das laterais. O elevador era sustentado por um cabo de aço, mas nem mesmo ele era totalmente seguro: todos sabiam que o cabo da mina de Tirpentwys tinha se rompido um dia em 1902 e que o elevador havia despencado até o fundo do poço, matando oito homens.
Billy meneou a cabeça para o minerador ao seu lado. Era Harry “Seboso” Hewitt, um menino de rosto redondo apenas três anos mais velho do que ele, embora fosse 30 centímetros mais alto. Billy se lembrava de quando Harry estava na escola: ele havia empacado na terceira série com os meninos de 10 anos, levando bomba ano após ano, até ter idade suficiente para trabalhar.
Uma campainha tocou, avisando que o sinaleiro no fundo do poço havia fechado sua grade. Seu colega da superfície puxou uma alavanca, fazendo uma campainha diferente soar. O motor a vapor chiou e então se ouviu outro baque.
A cabine despencou no vazio.
Billy sabia que o elevador entrava em queda livre, freando em seguida para fazer uma aterrissagem suave, mas nenhum conhecimento prévio poderia tê-lo preparado para a sensação de cair sem obstáculo algum rumo às entranhas da Terra. Seus pés se descolaram do chão. Ele gritou de medo. Não conseguiu se controlar.
Todos os homens riram. Sabiam que era a primeira vez dele e, como Billy percebeu, estavam esperando sua reação. Então ele notou, com atraso, que todos seguravam as barras da cabine para não ficarem suspensos no ar. Mas saber disso não atenuou em nada seu medo. Somente depois de apertar bem os dentes conseguiu parar de gritar.
Por fim, o freio foi acionado. A velocidade da queda diminuiu e os pés de Billy tocaram o chão. Ele agarrou uma das barras e tentou parar de tremer. Dali a um minuto, o medo foi substituído por uma sensação de humilhação tão forte que lágrimas ameaçaram brotar dos seus olhos. Ele encarou o semblante risonho de Seboso e gritou bem alto:
– Cala essa boca, seu merda.
A expressão de Seboso mudou no mesmo instante, assumindo um ar furioso, mas os outros homens riram mais ainda. Billy teria de pedir perdão a Jesus por ter dito um palavrão, mas sentia-se um pouco menos idiota.
Ele olhou para Tommy, que estava branco feito um lençol. Será que Tommy tinha gritado? Billy não quis perguntar, com medo de que a resposta pudesse ser não. O elevador parou, a grade foi aberta e Billy e Tommy seguiram, trêmulos, para o interior da mina. O ambiente era sombrio. As lamparinas dos mineradores produziam menos claridade do que as lanternas de parafina nas paredes de casa. A mina era tão escura quanto uma noite sem lua. Talvez eles não precisassem enxergar bem para minerar carvão, pensou Billy. Ele pisou em uma poça e, ao olhar para baixo, viu água e lama por toda parte, cintilando com o reflexo fraco das chamas das lamparinas. Sentia um gosto estranho na boca: o ar estava repleto de pó de carvão. Como era possível que os homens respirassem aquele ar o dia inteiro? Devia ser por isso que os mineradores viviam tossindo e escarrando.
Quatro homens aguardavam para entrar no elevador e subir até a superfície. Cada um deles carregava uma maleta de couro, e Billy percebeu que eram os bombeiros. Todo dia pela manhã, antes de os mineradores começarem o trabalho, eles testavam o nível de gás na mina. Caso a concentração de metano fosse excessiva, ordenavam que os homens não trabalhassem até ele ser dispersado pelos ventiladores.
Perto de onde estava, Billy podia ver uma fileira de baias para pôneis e uma porta aberta, que conduzia a uma sala bem iluminada com uma escrivaninha, provavelmente destinada aos subgerentes. Os homens se dispersaram, embrenhando-se por quatro túneis que irradiavam do fundo da mina. Os túneis eram chamados de galerias e conduziam aos locais onde o carvão era extraído.
Price levou-os até um barracão e abriu um cadeado. Era um depósito de ferramentas. Ele escolheu duas pás, entregou-as aos meninos e trancou o barracão de volta.
Em seguida, os três foram até a estrebaria. Um homem vestindo apenas um calção e botas removia com uma pá a palha suja de uma das baias, jogando-a dentro de um vagão de carvão. Suor escorria de suas costas musculosas.
– Quer um menino para ajudá-lo? – perguntou-lhe Price.
O homem se virou e Billy reconheceu Dai dos Pôneis, membro do conselho da Capela de Bethesda. Dai não pareceu reconhecer Billy.
– Não quero o pequeno – disse ele. – Certo – disse Price. – O outro é Tommy Griffiths. Ele é todo seu. Tommy pareceu contente. Tinha conseguido o que queria. Mesmo que fosse apenas limpar a sujeira das baias, iria trabalhar na estrebaria. – Venha, Billy Duplo – disse Price, entrando por uma das galerias. Billy apoiou a pá no ombro e foi atrás dele. Ficou mais ansioso sem Tommy ao seu lado. Preferia que o tivessem mandado limpar baias junto com o amigo. – O que eu vou fazer, Sr. Price? – perguntou. – Não consegue adivinhar? – respondeu Price. – Por que acha que eu lhe dei uma porra de uma pá? Billy ficou chocado ao ouvir aquela palavra proibida sendo usada de forma tão casual. Não conseguia adivinhar o que iria fazer, mas parou de perguntar. O túnel era arredondado, seu teto reforçado com suportes curvos de aço. Um cano de cinco centímetros de diâmetro corria pelo ponto mais alto dele, pro- vavelmente transportando água. Todas as noites, ela era usada para borrifar as galerias, numa tentativa de reduzir a quantidade de pó. Esta não só era um peri- go para os pulmões dos mineradores – se fosse apenas isso, a Celtic Minerals pro- vavelmente não se importaria – como também representava risco de incêndio. O sistema de irrigação, no entanto, era inadequado. Da havia argumentado que seria preciso instalar um cano de 15 centímetros, mas Perceval Jones se recusara a custear a despesa.
Cerca de 400 metros depois, eles entraram num túnel transversal ascendente. Era uma passagem mais antiga e mais estreita, sustentada por vigas de madeira em vez de anéis de aço. Price teve de abaixar a cabeça nos pontos em que o teto começava a ceder. A intervalos de mais ou menos 30 metros, eles passavam pelas entradas dos postos de trabalho onde os mineradores já extraíam o carvão.
Billy ouviu uma espécie de ronco, ao que Price falou: – Entre no bueiro. – O quê? – Billy olhou para o chão. Um bueiro era algo que existia nas calçadas da cidade, e ele não conseguia ver nada ali a não ser os trilhos pelos quais passa- vam os vagões. Ergueu os olhos e viu um pônei trotando na sua direção, vindo depressa ladeira abaixo, puxando uma série de vagões.
– No bueiro! – gritou Price.
Billy continuou sem entender o que se esperava dele, mas podia ver que o túnel tinha quase a mesma largura dos vagões e que ele seria esmagado. Então Price pareceu entrar na parede e desaparecer. Billy largou a pá, deu meia-volta e saiu correndo por onde tinha vindo. Tentou se manter à frente do pônei, mas o animal se movia com uma rapidez surpreendente. Foi então que notou um vão escavado na parede, indo do chão ao teto do túnel, e percebeu que tinha visto espaços como aquele mais ou menos de 25 em 25 metros, sem lhes dar muita atenção. Devia ser aquilo que Price chamava de bueiro. Ele se jogou lá dentro, e o comboio passou rugindo.
Depois que os vagões desapareceram, Billy saiu de dentro do bueiro, ofegante. Price fingiu se zangar, mas estava sorrindo. – Você vai ter que ficar mais esperto – falou. – Ou então vai morrer aqui embaixo... igual ao seu irmão. Na opinião de Billy, a maioria dos homens se comprazia em zombar da ignorância dos meninos. Ele estava decidido a ser diferente quando crescesse. Tornou a pegar a pá. Estava intacta. – Sorte sua – comentou Price. – Se tivesse sido quebrada, você precisaria pagar uma nova. Eles prosseguiram e logo adentraram uma seção exaurida da mina, onde os postos de trabalho estavam vazios. Havia menos água no chão, que estava coberto por uma camada grossa de pó de carvão. Eles fizeram várias curvas e Billy perdeu o senso de direção.
Chegaram a um local em que o túnel estava bloqueado por um vagão velho e sujo.
– Esta área precisa ser limpa – disse Price. Era a primeira vez que se dava ao trabalho de explicar o que quer que fosse, e Billy teve a impressão de que ele estava mentindo. – O seu trabalho é pôr a sujeira dentro do vagão com a pá.
Billy olhou em volta. Até onde a luz da sua lamparina alcançava, a camada de pó tinha 30 centímetros de altura, e ele imaginava que se estendesse para muito além. Poderia passar uma semana inteira recolhendo aquilo com a pá sem muito resultado. E para quê? Já não havia o que minerar ali. Mas ele não fez perguntas. Aquilo decerto era uma espécie de teste.
– Daqui a pouco eu volto para ver como você está indo – disse Price, retornando pelo mesmo caminho e deixando Billy sozinho.
Por essa Billy não esperava. Havia imaginado que fosse trabalhar com homens mais velhos, aprender com eles. Mas não podia fazer nada além do que lhe diziam. Ele desprendeu a lamparina do cinto e olhou em volta à procura de algum lugar para apoiá-la. Não havia nada que pudesse usar como prateleira. Pôs a lam- parina no chão, mas nessa posição ela era quase inútil. Foi quando se lembrou dos pregos que Da lhe dera. Então era para isso que serviam. Tirou um deles do bolso. Usando a lâmina da pá, pregou-o em uma das vigas de madeira, pendurando ali a lamparina. Bem melhor. O vagão batia no peito de um homem, mas, no caso de Billy, batia nos ombros – e, quando ele começou a trabalhar, descobriu que metade do pó escorregava da pá antes que conseguisse jogá-lo dentro do vagão. Ele inventou uma maneira de girar a lâmina para evitar que isso acontecesse. Em poucos minutos, ficou encharcado de suor e entendeu para que servia o segundo prego. Pregou-o em outra viga de madeira e ali pendurou a camisa e a calça.
Algum tempo depois, sentiu que alguém o observava. Com o rabo do olho, enxergou um vulto parado ali, imóvel feito uma estátua.
– Ai, meu Deus! – gritou, virando-se para encará-lo. Era Price. – Esqueci de testar sua lamparina – disse ele. Então retirou a lamparina de Billy do prego e fez alguma coisa com ela. – Não está muito boa – falou. – Vou deixar a minha com você. – Ele pendurou a outra lamparina no lugar e desapareceu.
Price era uma figura sinistra, mas ao menos parecia preocupado com a sua segurança.
Billy voltou ao trabalho. Dali a pouco, seus braços e pernas começaram a doer. Ele disse a si mesmo que estava acostumado a usar uma pá: Da criava um porco no terreno atrás de casa, e cabia a Billy limpar a pocilga uma vez por semana.
Mas isso só levava uns 15 minutos. Será que ele conseguiria passar o dia inteiro fazendo aquilo? Debaixo do pó, havia um chão feito de pedra e barro. Depois de algum tempo, ele conseguiu limpar uma área de pouco mais de um metro, a mesma largura do túnel. O pó mal cobria o fundo do vagão, mas ele já estava exausto.
Tentou empurrar o vagão para a frente de modo a não ter que caminhar tanto com a pá cheia, mas as rodas pareciam emperradas depois de tanto tempo sem uso. Ele estava sem relógio, então era difícil saber quanto tempo havia passado.
Começou a trabalhar mais devagar para poupar as forças. Então sua luz apagou. A chama primeiro tremeluziu, o que fez Billy olhar com aflição para a lamparina pendurada no prego, embora soubesse que a chama ficaria comprida caso houvesse grisu ali. Não era o que estava vendo, de modo que ficou mais tranqui- lo. Então a chama se apagou por completo.
Ele nunca tinha estado numa escuridão como aquela. Não conseguia enxergar nada, nem mesmo manchas cinzentas, nem mesmo tons diferentes de preto. Ergueu a pá até a altura do rosto, segurando-a a menos de 3 centímetros do nariz, mas nem assim conseguiu vê-la. Devia ser essa a sensação de ser cego. Ele ficou imóvel. O que deveria fazer? Teoricamente, levar a lâmpada até o ponto de acendimento. Porém, mesmo que conseguisse ver alguma coisa, teria sido incapaz de achar o caminho de volta pelos túneis. Naquele breu, poderia passar horas perdido. Não fazia ideia de quantos quilômetros de extensão tinham as galerias abandonadas e não queria que os homens tivessem de mandar uma equipe de busca para encontrá-lo.
Tudo o que podia fazer era aguardar a volta de Price. O subgerente tinha dito que voltaria “daqui a pouco”. Isso poderia significar alguns minutos, ou então uma hora ou mais. E Billy desconfiava que a segunda alternativa era a mais pro- vável. Com certeza Price havia planejado aquilo. Lamparinas de segurança não se apagavam nunca, e ainda por cima quase não ventava ali. Price tinha apanhado a lamparina de Billy e a substituído por outra com pouco óleo.
Ele sentiu uma onda de autocomiseração, e seus olhos se encheram de lágrimas. O que tinha feito para merecer aquilo? Logo em seguida, se recompôs. Era só mais um teste, feito o elevador. Iria mostrar a eles que era durão.
Decidiu que deveria continuar trabalhando, mesmo no escuro. Movendo-se pela primeira vez desde que a luz havia se apagado, ele pôs a pá no chão e a deslizou para a frente, tentando catar alguma coisa. Ao erguê-la, lhe pareceu, pelo peso, que a lâmina estava cheia. Virou-se, deu dois passos e então ergueu a pá, tentando jogar a sujeira dentro do vagão, mas avaliou mal a altura. A pá bateu na lateral da caçamba e ficou subitamente mais leve quando sua carga caiu no chão. Ele iria se adaptar. Tentou outra vez, erguendo a pá mais alto. Depois de descarregar a lâmina, deixou a ferramenta cair, sentindo o cabo de madeira bater contra a borda do vagão. Melhor assim. À medida que o trabalho o fazia se afastar cada vez mais do vagão, ele continuou a errar o alvo de vez em quando, até começar a contar os passos em voz alta. Logo estabeleceu um ritmo e, embora seus músculos doessem, conseguiu continuar.
Assim que o trabalho se tornou automático, sua mente ficou livre para divagar, o que não era tão bom. Ele se perguntou até onde aquele túnel ia e há quanto tempo estava abandonado. Pensou na terra acima de sua cabeça, se estendendo por quase um quilômetro, e no peso que aquelas vigas de madeira velhas sustentavam. Lembrou-se do irmão, Wesley, e dos outros homens que haviam morrido na mina. Mas é claro que seus espíritos não estavam ali. Wesley estava com Jesus. Os demais também, provavelmente. Caso contrário, estariam em outro lugar.
Ele começou a sentir medo e decidiu que era melhor não pensar em espíritos. Estava com fome. Será que já era hora de abrir a marmita? Não fazia ideia, mas resolveu comer assim mesmo. Conseguiu chegar ao local em que havia pendura- do as roupas, tateou o chão logo abaixo e encontrou sua garrafa e sua marmita.
Sentou-se com as costas apoiadas na parede e tomou um gole generoso do chá frio e doce. Enquanto comia o pão com banha, ouviu um barulho distante. Torceu para ser o rangido das botas de Rhys Price, mas essa era uma esperança infundada. Ele conhecia aquele guincho: eram ratos.
Não sentiu medo. Havia muitos ratos nas valas que se estendiam ao longo de todas as ruas de Aberowen. Naquela escuridão, contudo, os ratos pareciam mais ousados e, num piscar de olhos, um deles passou correndo por cima de suas pernas nuas. Transferindo a comida para a mão esquerda, ele apanhou a pá e desferiu um golpe com ela. Isso sequer os amedrontou e ele tornou a sentir suas garras pequeninas sobre a pele. Então um deles tentou subir por seu braço. Era óbvio que estavam sentindo o cheiro da comida. Os guinchos aumentaram e ele se perguntou quantos ratos haveria ali.
Levantou-se e enfiou na boca o último pedaço de pão. Tomou mais um pouco de chá, comendo o bolo em seguida. Estava uma delícia, cheio de frutas secas e amêndoas; mas um rato subiu por sua perna e ele foi obrigado a engolir o restante de uma vez só.
Os ratos pareceram perceber que a comida havia acabado, pois os guinchos foram diminuindo progressivamente e, logo depois, cessaram por completo.
Comer renovou as energias de Billy durante algum tempo e ele voltou ao trabalho, porém suas costas latejavam de dor. Ele continuou em um ritmo mais lento, parando para descansar com frequência. Para se animar, disse a si mesmo que talvez fosse mais tarde do que pensava. Provavelmente já era quase meio-dia. Alguém viria buscá-lo ao final do turno. O responsável pelas lamparinas contava as cabeças, de modo que eles sempre sabiam quando um dos homens não retornava à superfície. Mas Price tinha apa- nhado a lamparina de Billy e a substituído por outra. Será que ele pretendia fazer Billy passar a noite ali?
Isso nunca daria certo. Da armaria uma confusão. Os patrões tinham medo de Da – Perceval Jones havia praticamente confessado isso. Cedo ou tarde, sem dúvida alguém sairia à procura de Billy. Quando tornou a sentir fome, no entanto, teve certeza de que muitas horas haviam se passado. Começou a ficar com medo e dessa vez não conseguiu afastá-lo. Era a escuridão que estava mexendo com ele. Se conseguisse enxergar alguma coisa, poderia ter suportado a espera. Mas, naquele breu, sentia que estava perdendo o juízo. Sem qualquer senso de direção, sempre que se afastava do vagão ficava em dúvida se não estava prestes a se chocar contra a parede do túnel. Mais cedo, ficara preocupado em não chorar como uma criança. Agora, tinha de se esforçar para não gritar.
Então se lembrou do que Mam lhe dissera: “Jesus está sempre ao seu lado, mesmo lá no fundo da mina.” Na hora, pensou que ela estivesse apenas lhe dizendo para se comportar. Mas sua mãe fora mais sábia do que isso. É claro que Jesus estava ao seu lado. Jesus estava em toda parte. A escuridão não tinha importân- cia, tampouco a passagem do tempo. Billy tinha alguém para cuidar dele.
Para se lembrar disso, ele cantou um hino. Não gostava da própria voz, que ainda era muito aguda, mas, como não havia ninguém para escutá-lo, cantou o mais alto que pôde. Quando terminou de cantar e a sensação de medo ameaçou voltar, imaginou Jesus em pé do outro lado do vagão, observando-o com uma expressão de compaixão profunda no rosto barbado.
Billy entoou outro hino. Manejava a pá e caminhava ao ritmo da música. A maioria dos hinos era fácil de cantar. De vez em quando, tornava a ser invadido pelo medo de ter sido esquecido, de que o turno poderia ter acabado e ele esti- vesse sozinho lá embaixo; então simplesmente se lembrava da figura em pé ao seu lado no escuro, vestida com sua túnica.
Ele conhecia muitos hinos. Frequentava a Capela de Bethesda três vezes por domingo desde que tinha idade suficiente para ficar sentado quietinho. Os hinários eram caros, e nem toda a congregação sabia ler, então todos decoravam os versos.
Depois de cantar 12 hinos, ele calculou que uma hora tinha se passado. Já não era para o turno ter acabado àquela altura? Ainda assim, ele cantou mais 12. Depois disso, ficou difícil manter a contagem. Começou a repetir seus preferidos, trabalhando cada vez mais devagar.
Estava cantando “Ele se ergueu da tumba” o mais alto que podia quando viu uma luz. O trabalho havia se tornado tão automático que ele não parou, erguendo outra pá cheia e levando-a até o vagão, ainda cantando, conforme a luz ficava mais forte. Quando o hino terminou, ele se apoiou na pá. Rhys Price o observava, com a lamparina presa ao cinto e uma expressão estranha no rosto coberto de sombras. Billy não se permitiu sentir alívio. Não deixaria Price ver como estava se sentindo. Vestiu a camisa e a calça, tirando em seguida a lamparina apagada do prego e prendendo-a ao cinto.
– O que houve com sua lamparina? – perguntou Price. – O senhor sabe o que houve – disse Billy, e sua voz soou estranhamente adulta. Price virou-lhe as costas e começou a voltar pelo túnel. Billy hesitou. Olhou para trás. Do outro lado do vagão vislumbrou um rosto barbado e uma túnica clara, mas o vulto se dissipou como um pensamento. – Obrigado – falou Billy para o túnel vazio. Enquanto seguia Price, suas pernas doíam tanto que achou que fosse cair, mas pouco se importava com essa possibilidade. Conseguia enxergar de novo, e seu turno havia terminado. Dali a pouco estaria em casa e poderia se deitar.
Eles chegaram ao fundo do poço e entraram no elevador com um grupo de mineradores de rosto preto. Tommy Griffiths não estava entre eles, mas Hewitt Seboso, sim. Enquanto esperavam o sinal lá de cima, Billy percebeu que todos o encaravam com sorrisos marotos.
– Como foi seu primeiro dia, Billy Duplo? – perguntou Hewitt. – Bem, obrigado – respondeu Billy. A expressão de Hewitt era de malícia: obviamente se lembrava de que Billy o chamara de “seu merda”. – Nenhum problema? – indagou ele. Billy hesitou. Estava claro que eles sabiam de alguma coisa. Queria que percebessem que ele não se deixara vencer pelo medo. – Minha lamparina apagou – disse, mal conseguindo manter a voz firme.
Olhou para Price, mas decidiu que, se não o acusasse, estaria agindo mais como um homem. – Foi um pouco difícil trabalhar com a pá no escuro o dia inteiro – concluiu. Isso também já era deixar por menos: eles poderiam acabar achando que o seu calvário não tinha sido nada de mais. Mas era melhor do que reconhecer que ficara com medo.
Um homem mais velho falou. Era John Jones da Loja. Eles o chamavam assim porque sua mulher tinha uma pequena mercearia na sala de casa.
– O dia inteiro? – quis saber ele. – Sim – respondeu Billy. John Jones olhou para Price e disse: – Seu filho da mãe, era pra ter sido só por uma hora. As suspeitas de Billy foram confirmadas. Eles sabiam o que havia acontecido e, ao que tudo indicava, faziam coisa parecida com todos os recém-chegados. Mas Price o fizera sofrer mais do que o normal.
Hewitt Seboso sorria. – E então, Billy, você não ficou com medo sozinho no escuro? – perguntou. Billy refletiu antes de responder. Todos olhavam para ele, esperando para ouvir o que diria. Seus sorrisos marotos haviam desaparecido, e eles pareciam um pouco envergonhados. O garoto resolveu dizer a verdade:
– Fiquei com medo, sim, mas eu não estava sozinho. Hewitt se admirou. – Não estava sozinho? – Não, claro que não – respondeu Billy. – Jesus estava comigo. Hewitt riu bem alto, mas ninguém o acompanhou. A gargalhada ecoou no silêncio e cessou de repente. O silêncio durou vários segundos. Então houve um baque metálico e um solavanco, e o elevador começou a subir. Hewitt se virou para o outro lado. Depois disso, todos passaram a chamá-lo de “Billy com  Jesus "