domingo, 30 de agosto de 2015

A BATALHA DE MONS - Trecho do romance A Última Poesia - Do Orgulho Nasce a Guerra de Max Wagner


A Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha em 04 de agosto de 1914. Em 9 de agosto, a BEF começou embarcar para a França. A força compunha 80.000 soldados em dois corpos profissionais, inteiramente composta de soldados voluntários por tempo de serviço e reservistas, eram muito bem treinados e experientes, os Fuzileiros Reais eram a nata do Exército Britânico, talvez os melhores do mundo. Os britânicos chegaram em Mons em 22 de agosto. Nesse dia, o 5º Exército Francês, localizado no lado direito da BEF, foi fortemente envolvido com os alemães do Segundo e Terceiro exércitos na Batalha de Charleroi. A pedido do 5º Exército francês de Charles Lanrezac, o comandante da FEB, Sir John French, concordou em manter a linha do canal Condé-Mons-Charleroi por 24 horas, para evitar o avanço do 1º Exécito Alemão que ameaçava o flanco esquerdo francês. Os britânicos passaram o dia cavando ao longo do canal. A Batalha de Mons foi o primeiro combate da Força Expedicionária Britânica na guerra.


 O comandante britânico era o marechal Sir John French,  e o alemão era o general Alexander von Kluck, as forças britânicas estavam divididas em 2 corpos de infantaria, 1 divisão de cavalaria, 1 brigada da cavalaria, somando 80.000 homens, 300 canhões e algumas metralhadoras. Os alemães somavam 160 mil homens divididos em 4 corpos de infantaria, 3 divisões de cavalaria, 600 canhões  e muitas metralhadoras, uma força bem maior do que os ingleses. A BEF estava posicionada para impedir que o Exército Alemão invadisse a França. Várias pontes em Mons estavam sendo vigiadas enquanto os alemães se aproximavam. As duas divisões de infantaria britânicas estavam sob o comando dos generais Sir Douglas Haig e Sir Horace Smith-Dorrien. O Reconhecimento aéreo alemão havia detectado tropas britânicas em 21 de agosto, avançando de Le Cateau para Maubeuge, e em 22 de agosto de Maubeuge para Mons.



 Os voos britânicos de reconhecimento tinham começado no dia 19 de agosto e também em 20 de agosto, que não registraram sinal de tropas alemãs. Em 21 de agosto, pilotos britânicos avistaram tropas alemãs perto de Kortrijk e viram três aldeias em chamas. Uma equipe de reconhecimento de bicicleta encontrou uma unidade alemã perto de Obourg, e um dos ciclistas, John Parr tornou-se o primeiro soldado britânico a ser morto na guerra. A primeira ação significativa ocorreu na manhã de 22 de Agosto. Às 6h30, a cavalaria dos Dragões da Guarda fizeram uma emboscada numa patrulha alemã de lanceiros fora da aldeia de Casteau, ao nordeste de Mons. Quando os alemães viram a armadilha, resolveram fugir, uma tropa dos dragões liderada pelo capitão Hornby  começou a perseguição com homens armados com sabres. Na retirada, os alemães levaram os britânicos contra uma força maior de lanceiros, o capitão Hornby se tornou o primeiro soldado britânico a matar um alemão na guerra, a luta foi cavalo contra cavalo e sabres contra lanças. Doze missões de reconhecimento aéreo aconteceram em 22 de agosto e relataram a aproximação de muitas tropas alemãs. Um avião britânico foi derrubado e um observador tornou-se o primeiro piloto britânico a ser ferido durante o voo. 


O 2º Corpo da Infantaria comandado por Dorrien  enfrentou a maior parte da investida alemã, o 1º Corpo de Haig estava posicionado bem atrás. Na madrugada de 23 de agosto um bombardeio de artilharia alemã começou nas linhas britânicas; ao longo do dia os alemães concentraram-se no canal de Mons. Às nove horas o primeiro assalto da infantaria alemã começou, com os alemães tentando forçar seu caminho através de quatro pontes que cruzavam o canal no saliente.  Quatro batalhões alemães atacaram a ponte Nimy, que foi defendida pelo 4º Batalhão de Fuzileiros Reais e  duas metralhadoras Lewis lideradas pelo tenente Maurice Dease. 


Avançando em  estreita coluna cerrada, os alemães se tornaram alvos fáceis para os fuzileiros britânicos que disparavam seus rifles  Enfield matando muitos  alemães. A metralhadora comandada pelo  tenente Dease estava segurando o avanço alemão lhes infligindo muitas baixas, o fogo dos rifles britânicos eram tão eficientes que os alemães pensaram que enfrentavam baterias de metralhadoras. O ataque alemão inicial foi repelido deixando mais de 500 mortos em poucos minutos. Os alemães então mudaram o avanço para uma formação aberta e atacaram novamente com fuzis, metralhadoras e canhões. Este ataque foi bem sucedido, a formação alemã estava mais flexível tornando difícil para os britânicos infligir baixas rapidamente. As defesas começaram a serem ultrapassadas, e pressionadas para defender as travessias do canal, os Fuzileiros na ponte Nimy enfrentaram os mais pesados combates; a bravura excepcional das metralhadoras do tenente Dease e dos Fuzileiros Reais do capitão Ashburner  atrasaram os ataques alemães. 


 Na ponte Nimy, Dease assumiu o controle de sua metralhadora depois de todos os outros membros da sua seção terem sido mortos ou feridos, e disparou a arma enquanto foi possível, essa ação possibilitou a  retirada dos Fuzileiros Reais, o tenente Dease foi baleado várias vezes, inclusive na cabeça. Depois de ser alvejado no pescoço acabou morrendo. Quando Dease não foi capaz de operar a arma, o soldado Sidney Godley assumiu a metralhadora e ficou para trás para cobrir a retirada do que restara dos Fuzileiros no final da batalha. Godley  levou um tiro na cabeça, mesmo assim conseguiu se levantar  e jogou partes da  metralhadora Lewis no canal para  evitar  seu confisco pelos alemães. Ele foi capturado pelos alemães e levado como prisioneiro de guerra com a bala ainda alojada na sua cabeça.


À direita dos Fuzileiros Reais, o Regimento de Middlesex, e o 1º Batalhão Gordon Highlanders, foram igualmente pressionados pelo ataque alemão no saliente. Em grande desvantagem numérica, os dois batalhões sofreram pesadas baixas, mas com a adição de reforços do Regimento Real Irlandês, eles conseguiram manter as posições.  Os alemães expandiram seu ataque, assaltando as defesas britânicas ao longo do alcance direto do canal para o oeste do saliente. À tarde a posição britânica no saliente tinha se tornado insustentável; o Regimento Middlesex teve 15 oficiais e 353 soldados mortos ou feridos. No leste da posição britânica, unidades alemãs começaram a atravessar o canal, ameaçando o flanco direito britânico. Na ponte Nimy, o soldado Oskar Niemeyer havia nadado através do canal debaixo de fogo britânico para explodir uma ponte. Embora ele tenha sido morto, suas ações ajudaram na destruição da ponte, permitindo que o ataque alemão contra os britânicos  diminuísse. 


A cidade de Mons foi sistematicamente bombardeada pela artilharia alemã,  matando  muitos  civis  belgas,  soldados  e oficiais  ingleses.  Os britânicos foram condenados a retirar-se do saliente. Ao cair da noite o 2º Corpo de Infantaria estabeleceu uma nova linha defensiva que atravessa as aldeias de Montreul, Boussu , Wasmes, Paturages e Frameries. Os alemães haviam construído pontes de pontão sobre o canal e foram se aproximando das posições britânicas com grande força.  Haviam chegado notícias que o 5º Exército francês havia recuado, expondo o flanco direito britânico, as  duas horas da manhã de 24 de Agosto, o 2º Corpo foi obrigado a recuar para o sul-oeste  da França para chegar a posições defensivas ao longo da Valenciennes – Maubeuge.



A ordem inesperada de recuar a partir de linhas defensivas significava que 2º Corpo foi obrigado a lutar contra uma série de ações de retaguarda contra os alemães. Para a primeira fase da retirada, Smith-Dorrien ordenou à 5ª Brigada da Divisão 2, que não tinha sido envolvida em combates pesados em 23 de agosto, para atuar como retaguarda. Em 24 de agosto a 5ª Brigada lutou várias ações permitindo  a  retirada do Exército em segurança. Na aldeia de Wasmes, a 5ª Divisão enfrentou um grande ataque, a artilharia alemã começou a bombardear a aldeia de madrugada, finalmente às dez horas o 1º Corpo de Infantaria  de  Douglas Haig conseguiu atacar os alemães. Avançando em colunas, os alemães atacavam com fuzis e metralhadoras, apesar de muitas vítimas britânicas, conseguiram retirar-se em boa ordem para a aldeia de St. Vaast. A Retirada continuou durante duas semanas e cobriu mais de 400 quilômetros. Os britânicos foram perseguidos de perto pelos alemães e lutaram várias ações de retaguarda, incluindo a Batalha de Le Cateau em 26 de agosto, a ação de retaguarda em Étreux em 27 de Agosto e a  batalha de Néry em 1 de Setembro.


Ambos os lados tiveram sucesso na Batalha de Mons: os britânicos haviam sido superados em número de 3 por 1, mas conseguiram resistir ao Primeiro Exército alemão durante 48 horas, infligir mais baixas sobre os alemães e, em seguida, retirar-se em boa ordem. A BEF atingiu o seu principal objetivo estratégico, evitar que o 5º Exército francês fosse flanqueado. Pesadas baixas foram infligidas sobre os alemães atrasando ainda mais os planos  de vencer a França em pouco tempo. Por outro lado os alemães expulsaram os exércitos franceses e a BEF até as portas de Paris.


A batalha de Mons alcançou um status quase mítico. Na escrita histórica britânica, tem uma reputação como uma vitória improvável contra todas as adversidades, semelhante à vitória na Batalha de Azincourt, quando britânicos venceram uma força enorme de franceses durante a Guerra dos Cem Anos.  Mons ganhou um mito, um conto milagroso dos Anjos de Mons - guerreiros angélicos  descritos como fantasmas de Azincourt - tinham salvado o exército britânico das tropas alemãs. Alguns soldados afirmaram que tiveram visões de cavaleiros fantasmas, anjos ou arqueiros, e isso ocorreu durante a retirada britânica. Entretanto os supostos anjos não intervieram para atacar ou impedir as forças alemãs. Durante a retirada muitas tropas estavam exaustas e não tinha dormido bem durante dias, e podem ter sido alucinações. Um outro murmúrio entre as tropas era a  história do Lobo de Mons, um cão demoníaco  que  destroçou alemães e ingleses nas trincheiras de Mons, provavelmente outra alucinação, é bem provável que fossem lobos ou  cachorros se alimentando dos soldados mortos.

  Através do curso de toda a guerra nunca as tropas britânicas lutaram com tamanha desvantagem numérica, 1.600 britânicos foram mortos em Mons, mas as perdas alemãs foram de 5.000 homens. A heroica ação na ponte Nimy  concedeu a Victoria Cross ao tenente Maurice Dease e ao soldado  Sidney Godley, foram os primeiros ingleses da guerra a receber a mais alta honraria do Exército britânico. O corpo do tenente Dease encontra-se em St. Symphorien, cemitério fora de Mons, junto com muitos homens e oficiais de seu batalhão.










Sidney Goodley








Tenente Maurice  Dease






























John Parr



Charles Lanrezac


Marechal  Sir John French


General  Alexander von  Kluck 


General  Sir  Douglas Haig


General  Charles Lanrezac


General Sir Smith  Dorrien






terça-feira, 25 de agosto de 2015

DO ORGULHO NASCE A GUERRA - CAPÍTULO 1


A ÚLTIMA POESIA - DO ORGULHO NASCE A GUERRA

CAPÍTULO  1 - MARNE - O Inferno

  Na Terra de Ninguém  milhares  de  corpos  apodreciam  enquanto eram devorados pelos ratos...


  Uma compacta nuvem de fumaça subia rumo ao céu como se fosse um vulcão. Parecia o fim do mundo como aponta o Apocalipse. Aquela espessa fumaça negra sinalizava o massacre a que os poderosos poilus (soldados franceses) submeteram os alemães na Segunda Batalha do Marne. Corpos sem vida lotavam o chão daquela região. O capitão Gerrard de Burdêau se escondia das tropas alemãs na região do rio Marne. O jovem oficial estava acompanhado por seu irmão; o tenente Jacques e o melhor amigo deles, o temido tenente Razan Stocker. A grande fumaça negra de horror e mistério estava provocando vertigens no capitão Gerrard, começou a visualizar imagens, eram lembranças ainda recentes. 

 Eram esses homens, ases do ar - pilotos de caça. No dia 03 de julho de 1918, em uma patrulha, Gerrard e Jacques sobrevoavam as trincheiras perto de Rheims, na esperança de encontrar vestígios da aeronave Spad do tenente Razan, que havia sido derrubado pelos aviões azuis da Jasta 15 (esquadrilha alemã), entretanto Jacques foi alvejado pela antiaérea alemã e Gerrard foi derrubado pelo grande ás alemão Ernst Udet da Jasta 4, que pilotava um avião vermelho com listras brancas. Graças a um milagre, Gerrard e Jacques sobreviveram, e após uma caminhada entre as tropas, os poilus tentaram persuadi-los a voltar para as linhas de segurança para serem resgatados, mas se recusaram e continuaram a busca, até que foram informados que o Spad negro de Razan caiu perto das linhas alemãs. Então se arriscaram, e depois do rio Marne encontraram-se com o que havia restado da tropa do capitão Giraud. 

A tropa de Giraud estava aos frangalhos, apenas 50 homens ainda estavam na região do Marne. O oficial Giraud havia desaparecido nos terríveis combates que se seguiram. Fortuitamente Gerrard e Jacques conseguiram encontrar-se com seu amigo Razan, ele estava bem e relatou informações; o capitão Giraud deixou ordens para que a tropa se juntasse aos infantes do general francês Charles Mangin, para perseguir as tropas alemãs do general Ludendorff que marchavam para conquistar Paris. A maior parte do batalhão francês seguiu as supostas ordens de Giraud e partiram, entretanto 50 homens e o tenente Razan ficaram.

  O general Ludendorff pretendia dar sua cartada final para vencer a guerra, ele precisava vencer a Força Expedicionária Britânica, que protegia a região de Flandres (fronteira da Bélgica com a França). Para que os aliados fossem derrotados, precisavam ser atraídos e vencidos em outro lugar, o local escolhido foi o Marne. No dia 15 de julho, Ludendorff reuniu 40 divisões alemãs e atacou em duas frentes em Rheims - o 1º e o 3º Exércitos alemães, liderados pelos generais Bruno von Mudra e Karl von Einem atacaram a leste de Rheims, e o 4º Exército alemão comandado pelo general Max von Boehn atacou a oeste. A intenção de Ludendorff era dividir os exércitos franceses. Os  franceses  haviam  capturado  alguns  soldados  alemães  que  revelaram  o  plano  de  ataque  alemão, por  causa  disso   os  franceses  recuaram  o  seu  Exército,  para  surpreender  e  depois  acabar com os alemães.

 Apenas uns postos franceses avançados defendiam o que Ludendorff julgara ser um sistema de trincheiras fortemente defendido. Os generais alemães passaram por terreno vazio e deserto, enquanto 14 grandes tanques de guerra A7V os acompanhavam. Este pequeno número de tanques foi destruído em poucas horas pelos canhões franceses. O ataque em Rheims era a última e grande cartada alemã, eles depositaram nessa batalha tudo o que tinham, era tudo ou nada. Os alemães atacaram furiosamente o espaço vazio, e á medida que avançavam contra um punhado de postos de metralhadora, eles ultrapassavam rapidamente sua própria barragem de cobertura, entrando nas áreas de alvo, muito bem planejadas da artilharia francesa, reunida com a infantaria. Não havia caminhos, muito menos estradas, e por elas estendiam-se as dos alambrados enferrujados da terra de ninguém. A euforia levou os alemães a atravessarem grande território vazio na crença da grande vitória. Os canhões alemães bombardearam trincheiras vazias; as granadas de gás asfixiaram posições de artilharia vazias, atingiram apenas alguns locais onde haviam metralhadoras.

No leste de Rheims, os alemães conseguiram entrar em combate com o 4º Exército francês do general Henri Gouraud, e após uma luta terrível desde ás 5h do dia 15 de julho até a noite, continuamente reprimidos, não foram capturados canhões ou metralhadoras e sofreram pesadas baixas. No fim do dia, o 1º e 3º Exércitos alemães não haviam ganhado nada. Milhares de soldados alemães morreram, o fracasso foi quase total, as baixas foram muito grandes para permitir um novo ataque às posições francesas. No oeste de Rheims os alemães saíram vitoriosos. Por causa dessa vitória, ao meio-dia de 16 julho, Ludendorff ordenou que a invasão fosse totalmente concentrada no Marne.O marechal Ferdinand Foch (comandante geral aliado) reuniu 52 divisões aliadas, distribuídas em quatro Exércitos (francês, inglês, americano e italiano) para impedir o avanço alemão.

 As levas alemãs varriam as áreas do avanço, atravessando o rio Marne e formando perigosa cabeça de ponte na outra margem, avançando quase 10 km. Paris estava a menos de 80 km de distância. Dos parapeitos alemães desceu uma tempestade de fogo e aço, o Marne tinha que ser atravessado. Milhares de canhões e metralhadoras invadiam suas águas. As tropas de choque iam em frente, e uma vez mais "Nach Paris" (só falta Paris) estava em suas bocas. Lançando pontes flutuantes e balsas num rio intransponível, buscavam a outra margem, entravam em luta com os franceses e, também, com os americanos.

O capitão Gerrard de Burdêau viu quando 225 bombardeiros franceses e ingleses despejaram 44 toneladas de bombas sobre os alemães no rio Marne, despedaçando as suas balsas. Os alemães sofreram pesadas baixas, repelindo os aliados, firmavam seus alojamentos, robusteciam as pontes, arrastavam seus canhões  e granadas para a outra margem, e quando a noite desceu sobre o campo, 50.000 alemães já se haviam entrincheirado numa ampla frente além do rio Marne. Pararam então para recuperar as forças.

 O fracasso das divisões alemãs que enfrentavam o general francês Gouraud no leste impediu Ludendorff de estimular os que estavam na cabeça de ponte do Marne tentando avançar mais para o sul. Enquanto as forças aéreas francesas e britânicas atacavam repetidamente as travessias do Marne, parando as tentativas alemãs de levar reforços e munição para a cabeça de ponte, o 10º Exército francês atacou. O general francês Charles Mangin tinha 10 divisões - a 1ª e a 2ª Divisões americanas na primeira linha; seis divisões francesas e um Corpo de Cavalaria na segunda linha, e duas divisões britânicas: a 15ª e a 34ª, na reserva.Ele também tinha 346 tanques, na maioria os pequenos e velozes Renault FT. Deste total, 225 entraram em combate. Ás   04h35  de  18  de  julho, o  general Mangin desfechou seu  ataque  ao  sul  de  Soissons, tendo  como  alvo  a  tomada  da  estrada  para a cidade de Château Thierry. Os Fuzileiros Navais  americanos  encabeçaram  o  ataque  destroçando  os  campos  de  trigo á sua frente, logo foram apoiados pelas tropas  marroquinas.

Nas florestas de Compiégne e Retzs, apareceram os tanques Renaults avançando em círculos mortais, provocando pavor entre os alemães. O general Mangin não teria êxito se não fosse pelos americanos. O objetivo central dos alemães foi concentrado no avanço para Paris, e por causa da ansiedade, esqueceram-se das linhas de defesa da retaguarda, então os franceses e americanos capturaram 10.000 prisioneiros e 200 canhões até a noite daquele dia, que terminou com a artilharia francesa dominando a estrada para Chatêau Thierry, obrigando os alemães a iniciar a retirada para a outra margem do Marne.

 O ímpeto do ataque fora realizado pelo sacrifício dos americanos e pelos pequenos tanques Renault, entretanto os artilheiros alemães quando permaneciam junto a seus canhões, provocavam derrota aos tanques franceses, e muitos enguiçaram durante  a  reação  do primeiro dia. Mangin perdeu 102 tanques no dia 18 de julho, 50 no dia 19, e 17 (de um total de 32 em ação) a 20 de julho. Não restara nada para reforçar o sucesso inicial. Maltratadas e destroçadas, mas ainda embatidas, as divisões de assalto alemãs tornaram a atravessar o rio, mas com muitas dificuldades. Os alemães acabaram vencidos pelo desgaste, a ameaça a Paris fora evitada; as tropas alemãs entregavam-se  pouco a pouco a derrota. Os alemães foram obrigados a se retirar, muitos soldados alemães morreram no Marne, as divisões alemãs de Ludendorff foram massacradas. O capitão Giraud respondia diretamente ao general Mangin, sua tropa participou das ações no Marne.   Apesar de ser aviador, o capitão Gerrard era o oficial mais graduado entre os poilus de Giraud, deu então ordens para que marchassem até alcançar o resto da tropa que perseguia os alemães. 

De volta ao presente, o capitão Gerrard tentava respirar no meio de tanta fumaça. O ás francês era um belo homem de trinta anos, seu porte físico chamava atenção das mulheres, tinha os olhos verdes, bigode e cabelos claros. O capitão viu-se com a dificílima missão de liderar os remanescentes da tropa de Giraud, atravessando a Terra de Ninguém (o pedaço de terra que separava as trincheiras francesas das alemãs) até chegarem às retorcidas, enferrujadas e massacradas trincheiras alemãs. O rolo compressor Aliado já havia passado pelo local. 

No meio da fumaça, a tropa liderada pelo aviador avançava em silêncio, a tristeza e a frustração dos últimos quatro anos de guerra haviam tomado conta de todos, não entoavam mais os contagiantes hinos que encorajavam todos nas batalhas. Embora fosse um grupo bem armado, era loucura atravessar aquele local com um número tão reduzido de homens. Por que tão absurda ordem? Era intrigante o fato de avançarem, pois já havia tropas necessárias na região. Seria uma cilada? Por que Giraud teria deixado ordens para que marchassem? As ordens do general Mangin eram bem claras, o capitão Giraud deveria manter seu posto no rio Marne, e não avançar para alcançar o Exército alemão.

 Alguém compactuava com os alemães. Mas quem? O capitão Gerrard? Era um homem integro que não se venderia. Jacques, seu irmão? Quase impossível... Partira a traição de algum soldado da tropa? Quem sabe... O capitão Giraud era o principal suspeito. Todos estavam envoltos numa negra fumaça de horror e mistério. O capitão Gerrard via com pavor e incredulidade uma infinidade de corpos mutilados que jaziam no chão. Uma verdadeira carnificina. Entre eles haviam algumas enfermeiras e um pastor protestante, mortos sem a mínima chance de defesa. Dez soldados, apenas protegiam o local que servia de hospital aos soldados alemães feridos nas trincheiras. Esses civis que ajudavam no hospital improvisado seriam resgatados, mas a ajuda fugiu com a ameaça das tropas franco-americanas se aproximando, não ficou para salvar-lhes as vidas. Que tropa francesa seria responsável por tamanha chacina?

 De repente o silêncio mortal é quebrado pelo choro alucinante de uma criança... Razan era como um lobo do deserto, não temia nada. Não era um homem bonito; moreno de olhos castanhos e cabelos pretos, sua estatura mediana não metia medo em ninguém. Mas talvez fosse o melhor do grupo. Inescrupuloso e severo apesar da tenra idade, almejava sair da guerra cheio de honras e medalhas a qualquer preço. Um homem impulsivo que, ouvindo os gritos da criança avançou em sua direção de fuzil em punho, gritando: 

– Morra seu boche maldito!

 Enlouquecido, aproximou-se da criança e apontou-lhe a arma. Quando estava prestes a atirar, Gerrard gritou:
 – Está louco, seu desgraçado! 

Gerrard desferiu um gancho de direita no rosto de Razan, ele revidou e atracaram-se rolando trincheira abaixo. Após violenta troca de golpes, Razan levou a pior, e aparentemente mais calmo, disse – Chega, mon ami, desta vez eu desisto boxeador. Dê-me uma ajuda para eu me levantar. 

Razan era pérfido e jamais desistia. Quando Gerrard estendeu-lhe a mão, ele tentou golpear o capitão. Este foi mais esperto e esquivou-se, o soco pegou só de raspão. O alto e forte capitão acertou um soco no queixo de Razan que desmaiou.

 Ao alvorecer aquele lugar tomava aspecto soturno e inabordável. Razan despertou assustado com a água que estava sendo despejada em seu rosto. Seu corpo e seu cabelo estavam molhados. Suas últimas lembranças eram de ter apunhalado seu amigo e com gritos desesperados, despencou num barranco; levantou-se atordoado e a primeira coisa que viu então foi uma linda criança nos braços do capitão Gerrard – um menino loiro de intensos olhos azuis, alemão, que aparentava ter uns três meses. O bebê era bem cuidado e estava bem, apesar de ter sido encontrado num pedaço de cobertor com ratos prestes a devorá-lo. Sua mãe o abraçava quando morreu. Ela era uma mulher muito bonita, de corpo esbelto e olhos azuis, com a qual a criança se parecia, carregava nas mãos uma Bíblia marcada em Mateus 24. Gerrard tomou o livro sagrado para si. A mulher devia ser luterana. Havia sido morta por soldados franceses. O bebê foi o único que sobreviveu ao massacre.

 Gerrard prometeu a si mesmo que cuidaria daquela criança como se fosse seu filho e o chamou de Richard Wagner, em homenagem ao músico alemão. A tropa que passara ali não deveria estar longe, os corpos ainda cheiravam pólvora. Os enfermos haviam sido queimados e parte do acampamento ainda estava em chamas. Já recomposto, Razan observou tudo em sua volta e num ímpeto disse:

– Gerrard você é um tolo!

– E você o que é Razan? – Deixe de ser idiota, eu não vou brigar mais por causa de uma mísera criança.
 – Essa criança tem nome: Richard Wagner.


  – Ah, o coitadinho já tem um nome alemão. Vamos cessar essa conversa sem razão e conduzir a tropa. Você é ou não é o capitão ainda?
 – Creio que você tem razão. Vamos embora. Os soldados que mataram esses civis ignoraram todas as leis, precisamos encontrar os responsáveis para que sejam levados a julgamento!
 – Aviso-o que poilu algum vai carregar esse garoto. Você quer levá-lo, então ele é bagagem sua – acrescentou Razan.
 – Eu não vou levar  em  conta  suas  últimas atitudes, visto que  esse lugar está enlouquecendo todos. 

Algo misterioso estava deixando o tenente Razan irritado... Aquele terrível dia revelava corpos abandonados na Terra de Ninguém, e os ratos haviam iniciado a limpeza, devorando primeiro os olhos - sua principal iguaria. Assim os poilus continuaram caminhando o campo de sangue. A morte tomava conta do local. Tudo levava a crer, que um grupo maior de poilus estava à frente, deixando o rastro da destruição. O vento zunia trazendo mais fome, rasgando-lhes as entranhas. As trincheiras sem fim e o solo devastado pela guerra exalava odor fétido que se misturava à fumaça fúnebre. O verão despontava, chovia toda hora, a poeira transformava-se em lama, havia gente morta e despedaçada por toda parte, era um cenário indescritível, misturado de sangue, lama, cadáveres, vermes, piolhos e ratos. 

Os piolhos transmitiam uma doença terrível chamada “Febre de Trincheira” que trazia uma dor insuportável nas canelas, seguida por uma enorme febre, parte do exército da Europa estava nos hospitais por causa dessa moléstia, lutavam contra uma coceira terrível que chegava a arrancar pedaços do corpo. O céu das trincheiras era de um tom vermelho tingido de sangue. Não dava mais para distinguir o que era o chão ou o que eram cadáveres. Crateras enormes de lama provocadas por bombas eram armadilhas mortais onde muitos se afogavam, lembrava mais um tapete de mortos sobrepostos uns sobre os outros, que dividiam espaço com vermes e ratos que engordavam como porcos, e ficavam do tamanho de gatos.

 Era um vale de mortos que servia de esterco para a terra produzir flores depois da guerra. O cheiro de sangue podre era mais insuportável ainda, todo aquele horror na verdade não era vivido por histórias românticas e de coragem; mas sim por crianças e jovens combatentes apavorados que foram enganados a participar de uma guerra estúpida. Gerrard enfrentava a mais macabra visão de sua vida, imagens terríveis  que o acompanhariam pelo resto de sua vida,  seriam levadas com ele para o túmulo. Os soldados já não aguentavam mais andar e alguns estavam com pés de trincheira (espécie de gangrena provocada pela umidade nas meias dos soldados). O horror daquela visão é quebrado pelo choro compulsivo da criança já faminta. E traz Gerrard de volta à realidade:

 Mon Dieu, ajude-me! O que eu dou para essa criança comer? E se voltando para os poilus, indagava: – O que eu faço? Os soldados não tinham respostas e nem poderiam, pois não tinham experiência alguma com bebês. Tão pouco Gerrard, jamais estivera tão perto de uma criança, no entanto, amava Richard como se fosse seu legítimo filho. Razan não tinha uma gota de pudor, era um disparatado e inoportunamente, continuava com suas brincadeiras infantis, dizendo ao capitão: – Você está irreconhecível. Monsieur sempre foi um homem impulsivo, sangue quente; nunca ficou tão ligado em amor, fraternidade, ou pior, maternidade – Razan e o resto da tropa se entregavam às gargalhadas.

 – Coitadinho dele, ele quer dar de mamar! Tira os seios para o bebê, Gerrard!
 Os soldados ironizavam. Gerrard era alvo de gozação. Sem um único sorriso, Gerrard tinha consciência de que aqueles poilus eram a escória do mundo e isso o inquietava, desgostando-o mesmo. Ainda assim, não deixou a ira tomar conta de seu coração. Os soldados continuavam se divertindo e Razan dizia:


 – Onde está o capitão? O que é daquele homem autoritário? Nesse momento é cada um por si e Deus por todos, é a lei do mais forte. Aqui estamos esquecidos em algum lugar do território francês e não soa a voz de comando de nenhum capitão. O que aconteceu com você, Gerrard? O que o fez mudar dessa maneira?

 Gerrard estava pensativo, e numa reação impetuosa, arrancou o paletó azul de aviador e disse:
– A guerra me fez assim Razan! A guerra me fez assim! Eu ainda sou o capitão e quem tiver a audácia de recalcitrar, defrontará com minha fúria. Admira-me o fato de você me desrespeitar na frente desses poilus, eu sou seu oficial superior, não é por que somos amigos que você pode fazer o que quer. Espero que os americanos tenham realmente expulsado os boches de uma vez, senão todos morrerão.


 Cessaram as gargalhadas, a criança parou de chorar e todos acompanharam o capitão. O estômago faminto da guerra engolia corpos e mais corpos, os buracos feitos pelas granadas viraram túmulos a céu aberto. Pouca coisa importava para Gerrard. Ele prometera cuidar daquela criança e pretendia levá-la salva para Paris. Elisabeth, sua prima e noiva querida, contava sobremaneira nas lembranças de Gerrard. Assim que a guerra acabasse, pretendia se casar e levar uma vida serena ao lado de sua noiva e daquela criança. Elisabeth era alsaciana, uma das relíquias mais raras do mundo: muito garbosa, de estatura mediana, morena clara de olhos azuis, cabelos pretos e compridos. Gerrard não sabia qual seria a reação dela ao ver aquela criança alemã, pois ela odiava todos os alemães que roubaram as terras de sua família na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Em 1914, aos catorze anos, Elisabeth teve seu pai morto na Batalha da Alsácia, ele era oficial do Exército francês, e sua última lembrança era do pai num caixão ornado com a bandeira da França, medalhas e méritos, daí a repugnância pela raça ariana.

Gerrard conhecia o descontrole de Elisabeth com relação aos alemães e sabia conduzir algumas situações de desequilíbrio de sua jovem noiva, porém, sabia também que Elisabeth faria de tudo para se livrar de Richard. No entanto, ele correria esse risco, pois havia jurado que zelaria da criança.

O capitão não recebia notícias de sua noiva desde o último inverno, meses haviam se passado. Nem sabia se ela havia recebido suas últimas cartas. Será que bela e perspicaz como era esperaria por um piloto de guerra? Como estaria Elisabeth  reagindo à  completa  falta  de notícias suas?  Porque deveria ela  aguardar o regresso de alguém que pudesse até mesmo estar morto?

Gerrard sabia que somente um amor muito grande resistiria àquela confusa situação. Pensamentos inquietantes povoavam a mente do capitão: cairia Elisabeth na lábia de algum galanteador? Lembranças de um tempo de fantasias passavam pelos seus olhos...  Recordava-se do seu uniforme colorido e emplumado ao iniciar a guerra, que loucura! A verdadeira face do conflito desmanchou rapidamente suas ilusões...


As últimas lembranças de Gerrard não eram boas; em dezembro de 1917 havia se envolvido num duelo aéreo com Manfred von Richthofen, que apesar de lutar pela Alemanha era seu amigo antes da guerra. Em abril de 1918, Gerrard soube da morte do Barão Vermelho, foi então visitar seu túmulo em um cemitério francês, onde chorou sua morte.

Após a morte do Barão, as batalhas aéreas intensificaram-se e Gerrard enfrentou dois meses ininterruptos de dogfigths (luta do cão - duelos) com os pássaros azuis da Jasta 15, até ser derrubado por Ernst Udet da Jasta 4.



De volta ao presente, intrigava-o as estranhas ordens do capitão Giraud. Por que motivo ordenara que o grupo avançasse? Tudo parecia premeditado. Se já havia grupos de combate na região, qual a razão de estarem ali? Em voz baixa dizia para si mesmo:

– Que loucura é essa, mon Dieu? Eu sou um piloto não um soldado de trincheira.



Gerrard tinha dúvidas e já suspeitava de tudo e de todos, até de seu próprio irmão. Qual a razão de Jacques e Razan terem se desentendido se antes eram tão amigos? O silêncio do tenente Jacques com relação à Razan denunciava sério problema. O capitão olhava para a criança e indagava:

– Sua mãe era louca? O que lhe deu na cabeça para trazer um bebezinho para um hospital militar, tão perto das batalhas, não existe nada que explique trazer uma criança para um lugar como esse.


Em meio a essas reflexões, a criança voltou a choramingar, desesperando o capitão que não sabia o que fazer. Água era tudo o que possuía em seu cantil, na ansiedade despejou aquele líquido em seus próprios dedos e de repente, aquele bebê começou a sugá-los vorazmente, parando de chorar em seguida.


– Viva! Aleluia! Jesus, como eu pude ser tão idiota? Algo tão simples! E pulava de um lado para o outro na maior euforia, enquanto as zombarias de Razan continuavam: – Olhem, a mamãe deu à luz, coitadinha!


Um poilu estava a gargalhar quando, de repente, se ouviu vários estrondos ensurdecedores que tremeram a terra e levantaram lama por toda parte.



O poilu gritava de desesperadamente...








terça-feira, 18 de agosto de 2015

DO ORGULHO NASCE A GUERRA - INTRODUÇÃO

                                                     PREFÁCIO  


             A ÚLTIMA POESIA – DO ORGULHO NASCE A GUERRA 


 Erich Maria Remarque e Ernest Hemingway foram os escritores mais célebres que retrataram A Primeira Guerra Mundial, com “Nada De Novo Front e Adeus às Armas” desde então, apenas o estadunidense Jeff Shaara com seu romance histórico ”Até o Último Homem” e o galês Ken Follett com” Queda de Gigantes” conseguiram realizar o mesmo feito. Agora pela primeira vez, um brasileiro conseguiu escrever um romance sobre a Primeira Guerra Mundial: Max Wagner - o descendente de imigrantes italianos trouxe uma visão fantástica da guerra no seu romance “A Última Poesia - Do Orgulho Nasce a Guerra”. 


Este primeiro volume que dá início a saga narra a trajetória de um marco na história humana (A Primeira Guerra Mundial), suas perdas, desilusões e o fim do cavalheirismo. É o choque entre o Velho e o Novo Mundo, neste romance a História usou a Literatura como arma para desenhar um retrato vivo e chocante da Grande Guerra.  Uma misteriosa carta escrita pelo Barão Vermelho a um piloto francês se transforma numa poderosa arma de propaganda, podendo mudar o curso da guerra. A personagem principal da trama é o aristocrata e aviador francês Gerrard de Burdêau, que enfrenta um conflito dentro de si, para entender aquela guerra inútil, que matou milhões de homens e nunca deixou vencedores. O romance retrata passo a passo as grandes batalhas da Primeira Guerra Mundial, o sacrifício estúpido de milhares de vidas, as trincheiras, a lama e o sangue por toda parte. 

  A redenção chega para o capitão Gerrard, quando no final da guerra, em plena Batalha do Marne encontra uma criança alemã em uma trincheira. Diante dessa situação entra em conflito com seus compatriotas franceses e passa a lutar com todas as forças para ficar com o bebê. Do outro lado da Europa, o cabo Adolf Hitler, ferido em um hospital na Alemanha relembra o seu passado e os horrores daquela guerra terrível que durava quatro anos... A história frente a um soldado alemão angustiado na sua loucura, enquanto na França o aviador Gerrard de Burdêau vive as consequências e o fim do conflito que havia prometido acabar com todas as guerras...  Mergulhe nos campos lamacentos da Primeira Guerra Mundial, voe ao lado das grandes lendas aéreas de todos os tempos. Faça parte da saga dos Burdêau.




                                     Cappy - 21 de Abril de 1918

Caro amigo Gerrard não nos falamos desde o início da guerra. Já se passaram quatro anos desde que a guerra decidiu que seríamos inimigos. Venho através desta carta pedir-lhe desculpas. Não sei como, onde e nem quando poderá um dia me perdoar. Nessa manhã de primavera tive certeza que não sairei vivo desta guerra, por isso esta carta é a minha última esperança de pedir perdão. Tenho saudades da época em que cavalgávamos juntos nas terras da minha família. Conheci alguém especial, ela tem cuidado de mim desde que fui ferido na cabeça, acho que pela primeira vez estou apaixonado.

O excesso de disciplina e competição haviam  me cegado, mas as escamas dos meus olhos caíram. O Kaiser está me usando como arma de propaganda para ganhar a guerra, meu lugar é no front, eu sou mais útil nas batalhas do que viajando pela Alemanha para difundir uma mentira. Se descobrirem o conteúdo desta carta poderei ser condenado à morte, mas eu não me importo mais. O Kaiser é o maior responsável pelos alemães estarem perdendo a guerra, ele está escondendo da população o que realmente acontece no front, se o povo não souber a Alemanha vai cair num buraco sem fundo.

 Os generais Hindenburg e Ludendorff têm vivido uma mentira, e não sei até quando essa mentira vai durar. Perdoe-me por ter atirado em seu irmão Jacques durante aquele fatídico combate aéreo, eu não tive intenção de matá-lo, entretanto precisava afastá-lo de meu irmão Lothar, também sei que você não atirou em mim para matar, queria salvar a vida de seu irmão. Não vou sustentar a ilusão de nos encontrarmos após a guerra, sei que não sobreviverei a ela, por isso me despeço por aqui, adeus meu bom camarada, monsieur Gerrard de Burdêau.   
            
                                 Capitão Manfred Von Richthofen




No ano de 1994 está sendo comemorado em Paris, os 50 anos do fim da ocupação nazista na França. Entre as comemorações, o grande líder da Resistência Francesa, o major Richard de Burdêau é lembrado e homenageado. Jornalistas do mundo inteiro que participavam da solenidade estavam em grande alvoroço por causa de um documento encontrado que foi intitulado “A Carta Vermelha” escrita pelo Barão Vermelho a um piloto francês [...]


No Museu do Louvre a famosa bailarina e escritora Marianne de Burdêau; de olhos verdes, cabelos louros e curtos vislumbra um famoso quadro “O poeta e a bailarina no jardim” ao lado da obra foi cunhado o trecho de um poema...


“A Guerra e o Holocausto mataram os poetas, embora a poesia não consiga mais sobreviver, talvez quem talvez, somente talvez, um dia quando os campos floridos cobrirem as trincheiras os poemas possam renascer...”.



        O trecho do poema e as cores vivas do quadro transportaram Marianne para o passado... 





Paris 1958, num jardim próximo à Catedral de Notre-Dame, foi construído um monumento trabalhado em mármore intitulado “O Poeta e a Bailarina”, onde foi talhado um poema com o título “A Última Poesia”. Numa fração de segundos as lembranças de Marianne atravessam o território de Varsóvia na Polônia; percorre o extenso rio Vístula, passando pelas ruínas de um campo de concentração que ainda abriga uma bandeira da suástica que está se deteriorando com o tempo. Em seguida surge uma espessa sebe de sabugueiros até chegar a um antiquíssimo rancho e, com uma força descomunal, as recordações atravessam uma rústica porta de madeira e passam a percorrer os cômodos daquele antigo chalé e se depara com objetos antigos que refletem imagens do passado: uma Bíblia amassada com o desenho de um cavalo negro, um relógio de bolso com a foto de um bebê, uma coleira quase aos pedaços, uma pequenina caixa de música, um relicário de ouro empoeirado... Uma echarpe de seda cheirando mofo, a foto de um homem com duas crianças nos braços, e outra de um grupo maquis da Resistência Francesa. Várias condecorações militares, um diário de guerra que ainda se mantém em perfeita conservação; um boneco de pano corroído pelo tempo, e os vestígios de papel que imortalizaram uma poesia manchada de lágrimas e destruída pelas traças que ali convivem com um homem velho, cansado e atormentado pelo passado, que passou a contar a dois jovens irmãos; um missionário de nome Lucas e uma bailarina chamada Marianne, a história mais envolvente, dramática e impressionante dos últimos tempos... 

  






Primeira Guerra Mundial. Em meados de 1918, estourava uma grande batalha nos arredores da França. Paz... Parecia até nunca ter existido em canto algum do passado. Amizade, fraternidade, sentimentos esquecidos no horror daquela guerra sangrenta. Milhares de mortos caíam por terra todos os dias - homens, mulheres e crianças. Aviões duelavam no ar, soldados desertavam em massa, outros engrossavam a longa lista de baixas. Gritos, pedidos de socorro, corpos e sangue compunham o cenário da época. A dor e o desespero inundavam o lugar. Médicos e voluntários trabalhavam como loucos no intuito de salvar o maior número de vidas possível, entretanto as mutilações e a inabilidade dos leigos faziam com que muitos morressem mesmo antes do primeiro atendimento. Diante de tal situação imperava a lei do mais forte. A fome e as doenças matando nas trincheiras; bombardeios, gases mortais, canhões e metralhadoras mutilando os corpos entre ratos e vermes nos campos de batalha... 













 Após escrever uma carta, o Barão Vermelho decola com seu esquadrão do aeródromo de Cappy na França.


Um Triplano vermelho subia rasgando o céu numa velocidade impressionante, logo mergulhou desaparecendo nas nuvens. Um biplano inglês Camel sobrevoava a região do rio Somme, quando foi surpreendido por rajadas de fogo que tentavam atingi-lo, era o Barão Vermelho pilotando seu Fokker para derrubar mais uma vítima, mas no afã de abater seu inimigo acabou descuidando-se, e outro caça Camel se colocou na sua traseira e começou a atirar... Não longe dali, nos campos do Somme, uma divisão de infantaria australiana avistou o Triplano vermelho do Barão e começou a disparar contra ele. Entre as rajadas do Camel e dos australianos um tiro atingiu o piloto, a aeronave então se despenhou dissipando as nuvens, mergulhando até abraçar o chão.


Um soldado australiano foi o primeiro a chegar ao local, encontrando no cockpit do Triplano um homem que agonizava. O infante achou no bolso da vítima uma carta, era uma arma de propaganda muito poderosa, que poderia mudar o curso da guerra...




                                                                  I
            MARNE
               O INFERNO


  
“A GUERRA NUNCA DEIXA DE SER UM ARTÍFICE VIBRANTE, QUE USA SUAS CORES PARA TINGIR O CÉU E A NÉVOA DE ESCARLATE. GLORIOSA E INEXORÁVEL! COLORINDO COM SEUS PINCÉIS DE

SANGUE, UM RASTRO DE RESTOS MORTAIS DE CARNE. JAMAIS HESITA EM MARCAR PRESENÇA COM ALEGRIA, INSTIGANDO O PRESTÍGIO E PERPETUANDO O PODER, TRAZENDO UFANIA PARA A PÁTRIA: BERÇO INOLVIDÁVEL, REPLETO DE FLORES QUE AGUARDA SEUS FILHOS REGRESSAREM DA ÁRDUA BATALHA.  TANTO VIGOR A CUSTA DE QUE? DE LÁGRIMAS DE SANGUE DAS FAMÍLIAS DOS ENTES QUERIDOS, QUE APÓS A NOSTALGIA VOLTARAM COMO RETALHOS HUMANOS E CARCAÇAS DEPLORÁVEIS.
NO FINAL DE TUDO A GUERRA DEIXA UMA HERANÇA; A MEMÓRIA DOS SOLDADOS E CIVIS QUE ILUDIDOS DERAM SUAS VIDAS NUM CONFLITO INÚTIL ONDE JAMAIS HOUVE

VENCEDORES... “

             
      

        
  Um mar de nuvens cobria o céu  e  um  enorme  silêncio  pairava no ar. Campos verdejantes tomavam  conta  da  bela paisagem francesa.

De repente aquela visão bela e silenciosa foi quebrada por dois caças Spad, de cor verde, que dissipavam as nuvens tentando esquivar-se das bolas de fogo cuspidas pelas baterias antiaéreas alemãs, os clarões explosivos eram ensurdecedores, as bombas rasgavam as nuvens deixando pontos negros e enfumaçados pelo ar...

As terríveis trincheiras apareceram como se tivessem brotado do inferno, sugando os campos floridos, entrando em choque com a paisagem paradisíaca. Um dos Spads foi atingido pela antiaérea e obrigado a fazer um pouso forçado. Um Fokker vermelho de listras brancas com a inscrição “LO” na fuselagem liderava outros sete aviões de cores vivas, logo mergulharam disparando rajadas contra o outro Spad que acabou sendo atingido na cauda e caiu numa velocidade impressionante, alcançando a lama das trincheiras e espalhando destroços por toda parte...