terça-feira, 18 de outubro de 2016

DO ORGULHO NASCE A GUERRA - CAPÍTULO 4/ 1914 - O ESTOPIM

                                                

                                     

                                       IV

                                1914 – O Estopim  

                          



O ESTUDANTE SÉRVIO CONTRA O ARQUIDUQUE DA ÁUSTRIA-HUNGRIA. QUE CHANCE O INTRÉPIDO JOVEM TERIA?

NA VERDADE NENHUMA CHANCE. O ATRAPALHADO GRUPO DE ESTUDANTES COMETEU UM ERRO ATRÁS DO OUTRO, MAS O DESTINO, OU AS TREVAS QUERIAM QUE GAVRILO PRINCIP ANIQUILASSE FRANCISCO FERDINANDO PARA COMEÇAR UMA GUERRA. A MAIS MORTAL, A MAIS TENEBROSA, A MAIS DESTRUTÍVEL DE TODAS...

NEM AS LÁGRIMAS, O SOFRIMENTO, A FOME, O DESESPERO, E MUITO MENOS O SANGUE E A CARNIFICINA PUDERAM CALAR A MAIS TERRÍVEL GUERRA QUE O MUNDO JÁ HAVIA VIVIDO.



Durante a madrugada no hospital, o capitão Gerrard de Burdêau era acometido por pesadelos terríveis. A guerra queria sair, precisava ser trazida de volta...


Em 1914, os ânimos estavam muito acirrados, o menor incidente lançaria a Alemanha, que formava aliança com a Áustria-Hungria e Império Turco-Otomano contra a coalizão (França - Inglaterra - Rússia - Sérvia).




                                                                    1914


Era 09h45 da manhã de 28 de junho, um domingo, quando o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, a duquesa Sofia de Hohenberg chegaram à estação de trem de Saravejo, capital da Bósnia. Foram recebidos pelo general Oskar Potiorek, governador da província. O casal seguiu em comitiva oficial até a prefeitura. O arquiduque era sobrinho do imperador Francisco José Habsburgo e herdeiro do Império Austro-húngaro.

Em 1900 Ferdinando foi obrigado a jurar à corte Austro-húngara que sua futura esposa, a condessa Sofia Chotek não teria título imperial, e os filhos que nascessem perderiam o direito ao trono. Ela era filha de um fidalgo tcheco falido; desprezada pela corte austríaca. Proibida de ser vista em público com o marido, não participava das cerimônias oficiais e, se fosse aos cortejos, deveria acompanhar Ferdinando à distância. Ele sofria muito com as humilhações impostas à mulher que ele tanto amava, mas em Saravejo exigiu que ela fosse vista ao seu lado em público. Ferdinando era o inspetor das forças armadas Austro-húngaras, um dos objetivos da visita à Bósnia era assistir as manobras militares, enquanto Sofia deveria visitar escolas e orfanatos.

O dia 28 de junho não era uma boa data para que Ferdinando visitasse Saravejo, pois esse dia terrível era o aniversário da derrota dos sérvios contra os turcos em 1389, que deu início ao sofrimento e a luta contra invasores estrangeiros.

O primeiro ministro sérvio Nikola Pasil alertou Ferdinando de um possível atentado, mas ele já havia sobrevivido a três tentativas de assassinato, sabia que sua posição o colocava em extremo perigo; que poderia ser morto a qualquer momento. Não se importou com os rumores e percorreu a cidade num carro aberto.

Seis membros da Sociedade Mão Negra encontravam-se na multidão para realizar um atentado com pistolas e bombas. Um dos terroristas, Muhamed Mehmedbasic estava com uma granada, mas um policial o observava, ele não atirou a bomba.

Às 10h10, quando a comitiva passava em frente à estação policial, Nedjelko Cabrinovic jogou uma granada na direção do carro do arquiduque, a bomba bateu na capota do veículo e rolou pela rua caindo debaixo do automóvel que vinha atrás, ferindo dois passageiros e 12 pedestres. Confiante do sucesso, Cabrinovic engoliu cianureto e se atirou no rio, mas não morreu e foi preso. A velocidade dos carros no restante do trajeto impediu os outros três terroristas de agirem. A duquesa percebeu que um fragmento da bomba tinha feito um arranhão no seu pescoço, mas nada grave.

A comitiva se dirigiu para a prefeitura. Ferdinando teve um acesso de cólera e foi visitar os feridos no hospital. O general Oskar Potiorek garantiu que tudo estava seguro, alegando que Saravejo não estava cheia de assassinos, e retomaram o trajeto. Para evitar o centro da cidade, Potiorek traçou uma rota alternativa e sentou-se em frente ao arquiduque; o coronel Conde Franz Harrach ficou de pé sobre o estribo esquerdo do carro protegendo o corpo de Ferdinando. Entretanto Potiorek se esqueceu de avisar o motorista de Ferdinando, que seguiu o caminho original. Parecia que forças ocultas do mal queriam arrumar um pretexto para começar uma guerra. O erro foi fatal... Sem comunicação, os terroristas não sabiam do desenvolvimento do plano e continuavam atentos...

O automóvel negro seguiu acompanhado pela cavalaria, a multidão apreciava o cortejo, quando o general percebeu que estavam indo na direção errada avisou o motorista, ele tentou voltar, mas na confusão, Gavrilo Princip que tomava um café na rua deu de frente com o carro negro e caminhou na sua direção com uma pistola; um policial tentou agarrar o braço dele, mas outro terrorista deu um chute no seu joelho.

Uma forte explosão de granada assustou as montarias, dois jovens saltaram á frente do carro, Gavrilo Princip subiu no para-lama do veiculo e disparou dois tiros. Eram 11h30 quando o primeiro disparo fatal acertou Sofia, supostamente grávida, no estômago. O segundo tiro atingiu o pescoço de Francisco Ferdinando, cortando uma veia jugular. Tumulto, gritos e desordem.

Enquanto o carro manobrava para retornar à residência do governador, sangue escorreu da boca do arquiduque sob o rosto do Conde Harrach que estava no estribo do carro. Harrach usou um lenço para tentar conter o sangue. A condessa afundou-se no assento, caindo com o rosto entre os joelhos de seu marido. Harrach e Potiorek pensaram que ela havia desmaiado, Ferdinando não tinha ideia do que estava acontecendo, virando-se para a esposa, apesar da bala em seu pescoço, implorou: "Querida Sofia! Não morra! Fique viva para os nossos filhos!". Depois de dizer essas palavras, ele curvou-se para frente. O conde Harrach perguntou ao arquiduque: Vossa Alteza Imperial está sentindo muita dor? "Não é nada", disse o arquiduque com voz fraca. Durante os últimos minutos ele estava perdendo os sentidos, mas com voz fraca, repetiu várias vezes “Não é nada” o carro parou em frente à Câmara Municipal.

Apesar dos esforços médicos, o arquiduque morreu pouco depois de ser levado para dentro do prédio; sua amada esposa morreu de hemorragia interna. Os guardas prenderam Gavrilo Princip. Por pouco o plano não foi um fracasso total. Inexperientes, os três jovens sérvios, Gavrilo Princip, Nedjelko Cabrinovic e Trifko Grabez quase colocaram tudo a perder; mas a trapalhada da segurança colocou Gavrilo de frente com seu alvo.

A sociedade “Mão Negra” que organizara o atentado não havia aceitado a anexação da Bósnia ao Império Austro-húngaro em 1908; seu objetivo era colocar um fim no domínio austríaco nos Balcãs e unir as minorias sérvias aos povos da Sérvia independente. O seu líder era conhecido por coronel Ápis, seu nome verdadeiro era Dragutin Dimitrijevic, era também o chefe da espionagem militar sérvia. Em 1914 contratou os jovens sérvios para matar o arquiduque.

Após o assassinato os homicidas deveriam cometer suicídio com cianureto. Eles foram escolhidos porque já estavam condenados à morte pela tuberculose, não tinham o que perder. No total, oito homens foram presos. Princip não foi condenado à morte por que era considerado menor, recebeu então a pena máxima: 20 anos de trabalhos forçados, viveu o suficiente para ver que seu ato havia provocado a maior guerra de todos os tempos...

O assassinato do arquiduque Ferdinando foi à causa imediata da guerra, a mais mortífera que o mundo conhecera até então. O velho imperador Francisco José não aceitou o ultraje e se preparou para a guerra. A investida de oficiais sérvios no complô dos estudantes serviu de pretexto para que a Áustria-Hungria acertasse suas contas com a Sérvia; seu principal adversário nos Bálcãs.

A diplomacia poderia evitar a guerra, como evitou outras no passado, mas as crises que foram sanadas por diplomatas envolveram apenas assuntos de interesse nacional; mas com o assassinato do arquiduque nenhuma diplomacia seria capaz de evitar a guerra. A honra e o prestígio dos austríacos foram terrivelmente atingidos, ou seja, “Do Orgulho Nasceu a Guerra”.

Os austríacos solicitaram uma série de exigências contra a Sérvia, se ela se negasse, a Áustria iria á guerra. No início a Sérvia até que aceitou todas as exigências, mas acabou sendo encorajada pela aliada Rússia a não ceder, e que se fosse preciso o czar Nicolau movimentaria seus exércitos contra os austríacos. Diante da ameaça russa, o imperador Francisco José manteve cautela, e alguns dias depois convenceu o Império Alemão a apoiá-lo caso fosse necessário. Talvez os alemães pudessem evitar a guerra, mas as notícias da mobilização geral da Rússia geraram o ultimato alemão contra os russos, para que não se metessem no problema entre a Sérvia e a Áustria; era melhor que a guerra ficasse apenas entre eles.

O kaiser alemão Guilherme advertiu a França para que também não acudisse o aliado sérvio. Uma catástrofe levou a outra catástrofe, se os russos não se metessem a ajudar os sérvios, e se os alemães tirassem o ultimato contra os russos, a guerra poderia ser evitada. Tudo não passou de orgulho, ninguém queria ceder.

O funeral do arquiduque teve todas as honras imperiais, mas sua esposa não recebeu as mesmas honras. A família Habsburgo despreza Sofria e repudiava aquele casamento, Ferdinando enfrentou tudo e todos para ficar com ela, parecia uma história de conto de fadas.





No dia 28 de julho, o imperador Francisco José encorajado pelos alemães declarou guerra à Sérvia, e o império Turco-Otomano pediu formalmente à Alemanha a efetivação de uma aliança secreta, ofensiva e defensiva; que entraria em vigor no caso de qualquer das partes entrarem em conflito com a Rússia. No mesmo dia, a oferta foi recebida em Berlim. No último instante os turcos estavam prestes a dar o passo final para a guerra, só precisavam de um bom motivo. Mais tarde a Inglaterra proporcionou-lhes o motivo ao apoderar-se de dois cruzadores turcos que estavam sendo construídos em estaleiros ingleses.

A guerra começava trinta dias após o assassinato do arquiduque, que buscando esfriar os ânimos da região havia viajado à Saravejo, para anunciar a formação de uma monarquia tríplice (austro-húngaro-eslava), elevando teoricamente a Bósnia e a Herzegovina ao mesmo nível de importância da Áustria; mas os sérvios haviam planejado frustrar o projeto austríaco, que resultou na morte do arquiduque. Esse choque colocava alianças eslavas que traziam a Rússia para o conflito contra alianças germânicas, que traziam a Alemanha junto à Áustria. No dia 30 de julho os austríacos deram os primeiros disparos de canhão contra a fronteira da Sérvia, dando início a guerra.

No dia 1º de agosto, em resposta a pedidos urgentes dos franceses para guardar as travessias do Canal da Mancha, a Grã-Bretanha decretou a mobilização total da esquadra. Mas o Gabinete de Guerra ainda não estava preparado para recorrer ao exército. O rei George (Grã-Bretanha) e o czar Nicolau (Rússia) eram primos em primeiro grau do kaiser Guilherme (Alemanha), mas isso não impediu que se engalfinhassem.

Milhões de jovens europeus haviam-se apresentado aos seus depósitos regimentais. Cinco grandes exércitos estavam sendo formados na França e oito na Alemanha, um deles, o 8º estava concentrando-se na Prússia Oriental; onde deveriam impedir o caminho da Rússia para Berlim. Os outros sete dirigiam-se para suas posições localizadas na fronteira ocidental para enfrentar a França.

O Império Austro-Húngaro fez rolar a grande ofensiva e nada mais poderia cessá-la. Os alemães declararam guerra à Rússia, aliada à Sérvia e à França. Os germânicos também entrariam em guerra contra os franceses, usando o pretexto de que aviadores franceses haviam invadido o espaço aéreo alemão. A França e a Alemanha tinham contas a acertar desde a Guerra Franco-Prussiana. O estratagema alemão consistia em acabar com os franceses em 40 dias, e em seguida também destruir a Rússia. O plano do estrategista alemão Von Schlieffen deveria ser colocado em prática com o movimento das forças alemãs pelo norte da França. O próprio Schlieffen salientava que “O último homem da ala direita esbarrar no Canal da Mancha, o longo braço alemão faria a curva para o sul, rumo a Paris”. Os franceses seriam então destruídos, Paris conquistada e a guerra terminada.

Infelizmente Schlieffen morreu antes de ver seu plano em prática. A passagem através da Bélgica era importantíssima para uma vitória rápida e final. Os alemães aconselharam o rei Alberto a não atrapalhar a passagem do Exército alemão pela Bélgica; caso contrário, as retaliações seriam terríveis. Mas mesmo sobre fortes ameaças, Alberto decidiu resistir.

Por causa da negativa de ultimato, na noite de 04 de agosto de 1914, os alemães invadiram Visé, pequena aldeia belga, incendiando suas edificações, fuzilando e prendendo camponeses. A neutralidade belga foi violada. A Inglaterra aproveitou a oportunidade para se mobilizar, acreditando que poderia acabar com a expansão financeira germânica que ameaçava os britânicos.

Às 11 horas da noite de 04 de agosto, a Inglaterra aliada da Bélgica havia se aliado à França declarando guerra à Alemanha... Nesse mesmo dia, o almirante inglês John Jellicoe assumiu o comando da Home Fleet, Esquadra Metropolitana que defendia as Ilhas Britânicas.

No dia 05 de agosto os inimigos encontraram-se pela primeira vez, na foz do rio Tâmisa: o cruzador inglês “Anfion” afundou um navio porta minas alemão. Os alemães começaram a massacrar os belgas: estupravam as mulheres, queimavam as vilas, fuzilavam civis e realizavam muita pilhagem; mesmo assim a Bélgica continuava resistindo.

A cavalaria e infantaria alemãs tiveram o avanço impedido e os enormes morteiros Skoda e Krupp foram enviados para os fortes de Liége, mas os soldados reagiram ferozmente e as baixas alemãs aumentaram; esse atraso foi fatal para os alemães, pois eles não podiam perder tempo, caso contrário, não conseguiriam alcançar a fronteira para massacrar os franceses rapidamente. Foram então usados bombardeios com os enormes dirigíveis Zepelim e canhões de assalto para romper a linha, a fronteira belga estava mal protegida. As casamatas e o equipamento bélico das fortificações de Liége tinham pelo menos dez anos de atraso em relação aos modernos instrumentos de defesa. Ainda assim Liége resistia.

No dia 06 de agosto, o general Erich Ludendorff tomou a ofensiva conduzindo os alemães até uma elevação que lhes permitiu visualizar Liége de perto; exigiu que o comandante que protegia a cidade se rendesse, mas isso não aconteceu. No dia 07, Ludendorff lançou um ataque no centro de Liége provocando a fuga do comandante belga que se refugiou no Forte Concin. Ludendorff simplesmente bateu com o cabo de sua espada nas portas da cidade e obrigou os defensores de Liége à rendição.

No dia 05 de agosto, o marechal inglês Lord Kitchener havia assumido o Ministério de Guerra Britânico, ordenou a ampliação do Exército inglês, o cartaz de recrutamento continha a frase “Seu rei e seu país precisam de você: um apelo às armas” publicado em 11 de agosto. No dia 14 a BEF (Força Expedicionária Britânica) chegou à França para dar apoio aos franceses. No dia 16 de agosto os últimos dois fortes de Liége se renderam sem luta. Os canhões alemães e os Zepelins foram então levados para os fortes de Namur.

Os alemães invadiram a cidade de Louvain (capital da cultura belga), queimaram e destruíram a Biblioteca da Universidade que continha vários manuscritos antigos e os primeiros livros impressos da história; 230 mil livros valiosíssimos viraram cinzas. Mil outros prédios foram destruídos, 200 civis foram assassinados, e a população com mais de 40 mil habitantes fugiu em pânico, expulsa da cidade.

Depois da queda dos grandes fortes de Liége e Namur, o Exército belga fugiu numa debandada terrível com civis que corriam desesperados para a fronteira francesa; eles temiam as atrocidades cometidas pelos alemães. Depois das primeiras derrotas, o rei Alberto foi empurrado com o resto do seu exército até Antuérpia que foi destruída pelos canhões alemães. No dia 20 de agosto, Bruxelas foi conquistada, o Exército alemão era tão grande (dois milhões de homens) que demorou três dias para atravessar a cidade. Alberto liderou então o que restava de seu exército (60 mil homens) e recuaram até a região do rio Yser, perto de Ypres.

O caminho para a invasão da França estava aberto, mas a resistência belga atrasou o Plano Schlieffen, e isso para os alemães foi uma catástrofe, tudo dependia do avanço relâmpago. O atraso dos alemães era a grande chance da França reagir... Entretanto, o general Joffre, comandante das tropas francesas não reforçou a guarda na fronteira, deixando o caminho livre para os alemães; ou Joffre era louco, ou tinha um plano miraculoso para destruir os germânicos.

O general Joffre não era louco, ele realmente tinha um plano - O Plano 17 - que começou a ser planejado em 1900. O trunfo da tática francesa estava na chamada „ Ofensiva em Excesso „ para os franceses, a falta de espírito ofensivo foi o principal culpado pela derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Enquanto o Exército alemão rechaçava os belgas, os franceses iniciaram o Plano 17, atacando os germânicos pela Alsácia-Lorena.

No dia 08 de agosto, os franceses haviam conquistado Mulhouse na Alsácia, mas foram obrigados a abandonar o local. No dia 14 de agosto, o 1º e 2º Exércitos franceses deram início a uma ofensiva na Lorena; em 20 de agosto foram derrotados pelos alemães nas batalhas de Morhange e Sarrebourg. Trezentos mil soldados franceses foram mortos ou feridos entre 29 de julho e 22 de agosto (Batalha das Fronteiras).

Em trinta dias o general Joffre demitiu 58 generais e os substituiu por jovens de baixa patente que haviam se tornado heróis nas batalhas, entre eles Ferdinand Foch, responsável por comandar o 9º Exército. Durante a Batalha da Alsácia-Lorena, uma tragédia se abateu sobre o competente general Ferdinand Foch; seu filho, um jovem oficial que servia no 13º Regimento de Infantaria foi morto numa das batalhas da região.

O capitão Gerrard de Burdêau, seu irmão Jacques, e o amigo Razan faziam parte de um regimento de cavalaria Hussardo (nessa época ainda não eram aviadores), estavam posicionados para conquistar a Alsácia-Lorena, confiantes na grande virada francesa. A ofensiva gaulesa estava baseada em técnicas ultrapassadas, e marcharam empunhando suas espadas e baionetas, vestindo seus antigos uniformes de cores vivas; tudo foi um desastre. As mortíferas metralhadoras alemãs despedaçaram os franceses, foram totalmente destruídos, poucos sobreviveram. Milagrosamente, entre esses poucos estavam Gerrard, Jacques e Razan. O Plano 17 foi um desastre total.

O general Lanrezac, comandante do 5° Exército francês, responsável por defender a fronteira francesa com a Bélgica, implorou por mais tropas, mas Joffre respondeu que os germânicos não tinham nenhuma surpresa preparada na região; a teimosia de Joffre os levou a derrota. As esperanças de Lanrezac caíram então sobre o Corpo Expedicionário Inglês, que havia desembarcado dia 14 de agosto em Boulogne, com 80 mil soldados. Lanrezac acreditava na sua última esperança, de que agindo junto com os ingleses, poderia pelo menos atrasar o poderoso Exército alemão.

Os alemães massacravam os civis, vinham como gafanhotos, tiravam tudo, as mulheres eram forçadas a serem amantes. As crianças, os jovens e muitas mulheres foram enviados para campos de trabalhos forçados. A comida, a bebida, e os bens eram roubados; os velhos, os doentes e muitas crianças passavam fome, os boches tomavam suas roupas, queimavam suas casas e fuzilavam inocentes.





A Grã-Bretanha declarara guerra à Alemanha em 04 de agosto de 1914. Em 9 de agosto, a BEF começou embarcar para a França. A força compunha 80.000 soldados em dois corpos profissionais, inteiramente composta de soldados voluntários por tempo de serviço e reservistas, eram muito bem treinados e experientes, os Fuzileiros Reais eram a nata do Exército Britânico, talvez os melhores do mundo.

Os britânicos chegaram a Mons em 22 de agosto. Passaram o dia cavando ao longo do canal. A Batalha de Mons foi o primeiro combate da Força Expedicionária Britânica na guerra. O comandante britânico era o marechal Sir John French, e o alemão era general Alexander von Kluck. As forças britânicas estavam divididas em dois corpos de infantaria, uma divisão de cavalaria, uma brigada da cavalaria, somando 80.000 homens, 300 canhões e algumas metralhadoras.

Os alemães somavam 160 mil homens divididos em quatro corpos de infantaria, três divisões de cavalaria, 600 canhões e muitas metralhadoras, uma força bem maior do que os ingleses. A BEF estava posicionada para impedir que o Exército Alemão invadisse a França. Várias pontes em Mons estavam sendo vigiadas enquanto os alemães se aproximavam. As duas divisões de infantaria britânicas estavam sob o comando dos generais Sir Douglas Haig e Sir Horace Smith-Dorrien.

Em 21 de agosto, pilotos britânicos avistaram tropas alemãs perto de Kortrijk e viram três aldeias em chamas. Uma equipe de reconhecimento de bicicleta encontrou uma unidade alemã perto de Obourg, e um dos ciclistas, John Parr, tornou-se o primeiro soldado britânico a ser morto na guerra. Às 6h30 do dia 22, a cavalaria dos Dragões da Guarda, fez uma emboscada numa patrulha alemã de lanceiros fora da aldeia de Casteau, ao nordeste de Mons. Quando os alemães viram a armadilha, resolveram fugir. Uma tropa dos Dragões liderada pelo capitão Hornby começou a perseguição com homens armados com sabres.

Na retirada, os alemães levaram os britânicos contra uma força maior de lanceiros, o capitão Hornby se tornou o primeiro soldado britânico a matar um alemão na guerra. Um avião britânico foi derrubado e um observador tornou-se o primeiro piloto britânico a ser ferido durante o voo. O 2º Corpo da Infantaria comandado por Dorrien enfrentou a maior parte da investida alemã, o 1º Corpo de Haig estava posicionado bem atrás. Na madrugada de 23 de agosto um bombardeio de artilharia alemã começou nas linhas britânicas. Às nove horas o primeiro assalto da infantaria alemã começou, com os alemães tentando forçar seu caminho através de quatro pontes que cruzavam o canal no saliente.

Quatro batalhões alemães atacaram a ponte Nimy, que foi defendida pelo 4º Batalhão de Fuzileiros Reais e duas metralhadoras lideradas pelo tenente Maurice Dease. Avançando em estreita coluna cerrada, os alemães se tornaram alvos fáceis para os fuzileiros britânicos que disparavam seus rifles Enfield matando muitos. As metralhadoras comandadas pelo tenente Dease estavam segurando o avanço alemão lhes infligindo muitas baixas. O fogo dos rifles britânicos era tão eficiente que os alemães pensaram que enfrentavam baterias de metralhadoras.

O ataque alemão inicial foi repelido deixando mais de 500 mortos em poucos minutos. Os alemães então mudaram o avanço para uma formação aberta e atacaram novamente com fuzis, metralhadoras e canhões. Este ataque foi bem sucedido, a formação alemã estava mais flexível tornando difícil para os britânicos infligir baixas rapidamente. As defesas começaram a ser ultrapassadas, e pressionadas para defender as travessias do canal.

Os Fuzileiros na ponte Nimy enfrentaram os mais pesados combates; a bravura excepcional das metralhadoras do tenente Dease e dos Fuzileiros Reais do capitão Ashburner atrasaram os ataques alemães. Dease assumiu o controle de sua metralhadora depois que todos os membros da sua seção foram mortos ou feridos, e disparou a arma enquanto foi possível; essa ação possibilitou a retirada dos Fuzileiros Reais. O tenente Dease foi baleado várias vezes, inclusive na cabeça. Depois de ser alvejado no pescoço acabou morrendo.

Quando Dease não foi capaz de operar a arma, o soldado Sidney Godley assumiu a metralhadora e ficou para trás cobrindo a retirada do que restara dos Fuzileiros. Godley levou um tiro na cabeça, mesmo assim conseguiu se levantar e jogou partes da metralhadora Lewis no canal, para evitar seu confisco pelos alemães. Ele foi capturado pelos alemães e levado como prisioneiro de guerra, com a bala ainda alojada na sua cabeça.

Os alemães expandiram seu ataque, assaltando as defesas britânicas ao longo do alcance direto do canal para o oeste do saliente. À tarde a posição britânica no saliente tinha se tornado insustentável; o Regimento Middlesex teve 15 oficiais e 353 soldados mortos ou feridos. No leste da posição britânica, unidades alemãs começaram a atravessar o canal, ameaçando o flanco direito britânico.

Na ponte Nimy, o soldado Oskar Niemeyer havia nadado através do canal debaixo de fogo britânico para explodir uma ponte. Embora ele tenha sido morto, suas ações ajudaram na destruição da ponte, permitindo que o ataque alemão contra os britânicos diminuísse.

A cidade de Mons foi sistematicamente bombardeada pela artilharia alemã, matando muitos civis belgas, soldados e oficiais ingleses. Ao cair da noite, o 2º Corpo de Infantaria estabeleceu uma nova linha defensiva que atravessava algumas aldeias. Haviam chegado notícias que o 5º Exército francês havia recuado, expondo o flanco direito britânico. Infelizmente os alemães destruíram a tropa do general Lanrezac, na batalha do rio Sambre. O general francês acabou recuando para não perder o resto do seu exército, e pelo seu recuo foi demitido pelo general Joffre, que o acusou de covardia.

Às duas horas da manhã de 24 de Agosto, o 2º Corpo britânico foi obrigado a recuar para o sul-oeste da França, para chegar a posições defensivas ao longo da Valenciennes – Maubeuge. Para a primeira fase da retirada, Smith-Dorrien ordenou à 5ª Brigada da Divisão 2, que não tinha sido envolvida em combates pesados em 23 de agosto, para atuar como retaguarda. Em 24 de agosto, a 5ª Brigada lutou várias ações permitindo a retirada do Exército em segurança.

Finalmente às dez horas o 1º Corpo de Infantaria de Douglas Haig conseguiu atacar os alemães. Avançando em colunas, os alemães atacavam com fuzis e metralhadoras, apesar de muitas vítimas britânicas, conseguiram retirar-se em boa ordem. A retirada continuou durante duas semanas e cobriu mais de 400 quilômetros. Os britânicos foram perseguidos de perto pelos alemães e lutaram várias ações de retaguarda.

Ambos os lados tiveram sucesso na Batalha de Mons: os britânicos haviam sido superados em número de 3 por 1, mas conseguiram resistir ao 1º Exército alemão durante 48 horas, infligir mais baixas sobre os alemães, em seguida, retirar-se em boa ordem. A BEF atingiu o seu principal objetivo estratégico, evitar que o 5º Exército francês fosse flanqueado. Pesadas baixas foram infligidas sobre os alemães, atrasando ainda mais os planos de vencer a França
em pouco tempo. Por outro lado os alemães expulsaram os Exércitos franceses e a BEF até as portas de Paris.

A batalha de Mons alcançou um status quase mítico. Na escrita histórica britânica, tem uma reputação como uma vitória improvável contra todas as adversidades, semelhante à vitória na Batalha de Azincourt, quando britânicos venceram uma força enorme de franceses durante a Guerra dos Cem Anos. Mons ganhou um mito, um conto milagroso dos Anjos de Mons - guerreiros angélicos descritos como fantasmas de Azincourt - tinham salvado o Exército britânico das tropas alemãs. Alguns soldados afirmaram que tiveram visões de cavaleiros fantasmas, anjos ou arqueiros, e isso ocorreu durante a retirada britânica. Entretanto os supostos anjos não intervieram para atacar ou impedir as forças alemãs. Durante a retirada muitas tropas estavam exaustas e não tinham dormido bem durante dias, e podem ter sido alucinações.

Outro murmúrio entre as tropas era a história do Lobo de Mons, um cão demoníaco que destroçou alemães e ingleses nas trincheiras de Mons, provavelmente outra alucinação, é bem provável que fossem lobos ou cachorros se alimentando dos soldados mortos.

Através do curso de toda a guerra, nunca as tropas britânicas lutaram com tamanha desvantagem numérica, 1.600 britânicos foram mortos em Mons, mas as perdas alemãs foram de 5.000 homens. A heroica ação na ponte Nimy concedeu a Victoria Cross ao tenente Maurice Dease e ao soldado Sidney Godley, foram os primeiros ingleses da guerra a receber a mais alta honraria do Exército britânico.





Os russos haviam invadido a Prússia e vencido na Batalha de Gumbinnem. O general russo Samsonov alcançara a fronteira prussiana, suas tropas estavam exaustas e famintas. Sua chegada foi vista pelo comandante da Prússia Oriental Max Von Prittwitz, que entrou em pânico. Prittwitz abalado com a ação em Gumbinnen reuniu dois dos seus homens de Estado-Maior, o general Grünert e o tenente-coronel Max Hoffmann, para ordenar uma retirada para o rio Vístula. Grünert e Hoffmann protestaram, argumentando que a vitória russa em Gumbinnen deveria ser totalmente rechaçada.

Quando o marechal Helmuth von Moltke (Chefe geral do Estado Maior da Alemanha) recebeu estas notícias, chamou Prittwitz e seu ajudante Von Waldersee para Berlim e ambos foram exonerados e substituídos pelo general Paul von Hindenburg - que retornou da sua aposentadoria aos 66 anos - e pelo general Erich Ludendorff que lutara na Bélgica.

Hindenburg suspendeu imediatamente a ordem de retirada de Prittwitz e autorizou o plano do coronel Hoffmann para destruir os russos. A maior parte do exército do Czar comandada pelo general Samsonov, foi atraída para uma armadilha e cercada pelos alemães, muitos russos saíram em debandada, parte de uma divisão foi encurralada contra o Lago Bössau e, em pânico, grande número de soldados morreu afogado. Deste cerco nasceu a lenda de que Hindenburg pressionara o exército de Samsonov, para os lagos e pântanos, afogando milhares.

No dia 27 de agosto, o comandante alemão François abriu uma barragem contra os russos, próxima a Usdau. As tropas do Czar, famintas e exaustas, não puderam suportar o bombardeio e fugiram. François, então ordenou a perseguição em direção a Neidenburg. Na noite do dia 29, as tropas de François ocuparam a linha Neidenburg-Willenburg, montando uma rede entrincheirada cortando a retirada dos russos, que se perderam nas florestas. Com sua retaguarda obstruída, tornaram-se homens famintos e exaustos. 

Samsonov estava no meio da debandada e sumiu na floresta. Ele saiu sem ser visto. Samsonov preferiu tirar a própria vida a assumir a vergonha da derrota. O general russo foi enterrado perto de Willenberg, como um desconhecido.

O número da destruição foi grande, 92.000 prisioneiros foram feitos, dois corpos e meio aniquilados, enquanto a outra metade do exército de Samsonov estava disperso e batido. Contra Ludendorff pesa a falha em completar o cerco e a destruição das forças de Samsonov. Max Hoffman sugeriu nomear a batalha 'Tannenberg' para apagar a lembrança da derrota, na batalha medieval de Tannemberg em 1410, no qual forças teutônicas foram derrotadas por poloneses e lituanos ali perto.

Ainda no mês de agosto, o Japão se aliou a Entente e declarou guerra às Potências Centrais, lutando nas colônias alemãs. O território belga estava em mãos alemãs, os russos haviam sido vencidos em Tannemberg, os germânicos então voltaram sua carga total contra os franceses. Aquele era o verão mais quente dos últimos cem anos, o próprio inferno na terra.





O comandante do Exército alemão era o marechal Von Moltcke, sua principal característica era cautela, mas ainda assim os alemães marchavam com força total. Em Mons, os britânicos tentaram segurar o Exército alemão, mas também foram obrigados a recuar, e o caminho para Paris estava livre. França e Inglaterra entraram em pânico, os germânicos estavam a menos de 40 km da Torre Eiffel.

No dia 30 de agosto, Paris foi evacuada e o governo transferido para Bordeaux. No meio de toda essa catástrofe, o general Joffre mostrava-se confiante, ele acreditava em um milagre... Os alemães conseguiriam chegar a Paris e destruir a França? Ou Joffre, o único ainda a acreditar na vitória, salvaria Paris da completa destruição? O 1º Exército alemão, comandado pelo general Alexander von Kluck já havia atravessado o rio Marne, e na noite de 05 de setembro os seus soldados se haviam atirado ao chão, dormindo profundamente. Nos próximos dias esse Exército marcharia em Paris e a Alemanha venceria a guerra?

O milagre de Joffre apareceu graças à cautela de von Moltcke, que deu ordens para o general alemão von Kluck evitar Paris por enquanto, e marchar ao sudoeste para acabar com o 5º Exército francês. Os homens de Kluck foram arrancados do repouso. Seus esgotados soldados teriam que realizar uma difícil manobra, a retirada de todo o 1º Exército para atacar o 5º Exército francês. Mas a ordem do marechal Moltcke deixou os alemães desprotegidos. Percebendo a oportunidade o general Joffre ordenou o ataque... O general francês Joseph Simon Gallieni, responsável pela proteção de Paris, organizou um contra-ataque para tentar barrar o rolo compressor alemão, e recebeu ordens de Jofre para que a 6ª Infantaria francesa do general Maunoury atacasse o 1º Exército alemão.

A Força Expedicionária Britânica, não queria se aproveitar da manobra francesa da 6ª Infantaria, porque os britânicos e seu comandante Sir John French haviam perdido a vontade de lutar, por causa da derrota em Mons. Joffre impôs uma condição para manobrar para o contra-ataque total: assegurar-se da disposição de Sir French de lutar, e para isso fez-lhe uma visita em que declarou que (a honra da Inglaterra estava em jogo).

Diante dos apelos de Jofre, o 5º Exército do comandante britânico Franchet d‟Esperey, avançou para travar combate com o 2º Exército, do comandante alemão Karl von Bülow. O comandante britânico atacou conforme ia encontrando alemães na manhã de 06 de setembro. No fim do dia, o 5º Exército reconquistara boa parte do terreno sem grande esforço.

Embora inacreditável, durante a Batalha do Marne, os Exércitos franco-britânicos foram salvos pelos taxistas parisienses, não havia tempo para organizar transporte, e os carros de praça acabaram convocados como auxiliares de guerra pelo general Joseph Gallieni. Conseguiram levar em 600 veículos vermelhos, mais de seis mil soldados para a área dos combates. Felizmente o espírito ofensivo estava vivo nos franceses, a intrepidez estava levando as tropas resistirem no Marne.

O comandante alemão Von Kluck engajou suas divisões à medida que a intensidade da luta aumentava. Na manhã de 09 de setembro, o comandante inglês d‟Esperey decidiu desviar dois dos seus quatro corpos para o general francês Ferdinand Foch, a fim de aliviar a pressão que lhe era feita nos pântanos de Saint Gond.

Embora os britânicos tivessem alcançado o rio Marne no dia 8 de setembro, não desfecharam o golpe fatal que poderiam ter aplicado se reforçados no momento mais difícil. Quando os britânicos iniciaram a travessia do rio Marne, o resultado da batalha do Marne já estava decidido. O comandante Foch afirmou que „ Uma vitória é uma batalha que recusamos admitir ter perdido„.

No dia 09 de setembro, o Q-G alemão admitiu a derrota na Batalha do Marne. A vitória foi considerada um milagre, pelo fato de que os Aliados tinham poucas chances, a queda de Paris parecia inevitável. Entretanto, os alemães não se sentiam vencidos, apenas estavam tomando tempo para atacar novamente. As comunicações, e os exércitos de campanha alemães haviam sido lentas durante toda a campanha, principalmente por causa de seu comandante (marechal Moltcke) que teve um colapso nervoso após a derrota e foi substituído pelo general Erich von Falkenhayn.

O general Henry Wilson, subchefe do estado-maior inglês disse que estariam em Elsenborn, o ponto onde os alemães haviam desembarcado dos trens na fronteira com a Bélgica, em três semanas. Três dias depois de iniciada a retirada alemã começou a chegar comunicados no QG francês, sobre contatos feitos com inimigos em posições entrincheiradas de onde não era possível retirá-los.

No dia 17 de setembro, toda a linha alemã, desde Soissons no Aisne, até a fronteira suíça, havia sido estabilizada e estava sendo rapidamente fortificada, somando 720 quilômetros de trincheiras. Em outubro não havia um só metro de linha na Frente Ocidental que não fosse defendido por entrincheiramentos. Enganara-se terrivelmente o general Wilson, não seria uma vitória fácil. Chamou-se esta campanha de „A Corrida para o Mar „. Traçada em um mapa, a frente entrincheirada descrevia um grande “S” invertido.

Os alemães haviam perdido inicialmente a Batalha do Marne, entretanto a batalha não definiu quem venceria a guerra, mas determinou que a guerra continuasse. Os soldados franceses passaram a ser chamados de poilus (peludos) por causa da sua condição nas trincheiras. Os alemães não queriam perder a guerra, estavam fortemente entrincheirados, prepararam um novo plano de invasão através de um pequeno rio chamado Yser, na Bélgica, parecia fácil demais...





Um mês havia se passado da Batalha do Marne, e os alemães pretendiam passar pela França atravessando um insignificante córrego, para acabar de uma vez por todas com os exércitos franceses. O Exército belga tinha escapado do cerco alemão em Antuérpia. O território belga estava em mãos alemãs, o rei Alberto e sua família haviam se retirado para a fronteira com a França. Patrulhas da cavalaria alemã avançavam na frente, outros procurando pela retaguarda inimiga.

Os belgas eram refugiados, entulhados nos últimos trens ou fugindo usando carros, carroças ou a pé, em direção à fronteira francesa e já se amontoando nos portos do Canal da Mancha. Misturados com os refugiados havia unidades do exército do rei Alberto, as fardas não pareciam com uniforme militar. Outros, que tinham escapado para a Holanda depois que a cidade caiu, retornaram ao invés de enfrentar a prisão, jogando fora seus uniformes e repassando a fronteira em roupas civis.

O primeiro Lorde do Almirantado Britânico (Winston Churchill) comandava os Fuzileiros Reais. Os homens de Churchill e o Exército de Alberto seguraram o avanço alemão por algum tempo, mas logo os alemães forçaram a Divisão Naval Real e o restante do Exército belga a refugiar-se no rio Yser.

Depois das seis da manhã de 17 de outubro, o canhoneio começou na linha do Yser. Na manhã do dia 18 de outubro, liderados pelo Duque de Wurttemberg, os alemães atacaram. Canhões de sítio destroçavam as muralhas de tijolo e casas das vilas rurais onde as tropas belgas procuravam abrigo. Ao anoitecer, somente dois lugares do rio permaneciam em mãos aliadas: os subúrbios de Nieuport, onde o bombardeio de uma flotilha inglesa parou o avanço alemão pelas dunas; e Dixmude, onde uma brigada de fuzileiros navais franceses fizeram uma resistência na última linha.

No dia 19 de outubro, havia começado a Batalha de Flandres, em Ypres (fronteira franco-belga). O general alemão Erich von Falkenhayn liderou o 4° e 6º Exércitos alemães, contra as divisões inglesas e francesas dos comandantes Sir Jon French e Ferdinand Foch. A linha do Yser e do canal de Ypres ia até o canal de Langemarck, nos arredores da cidade de Ypres. Na batalha de Ypres, os ingleses lutaram contra estudantes alemães do Corpo de Reserva, que não tinham experiência em combate, não passavam de idealistas que iriam conhecer o que a guerra realmente representava. Os britânicos conseguiram pressionar os alemães até as quatro colinas baixas, a mais importante era Passchaendaele.

Em Nieuport, os belgas fizeram uma experiência com inundação, abrindo as comportas no rio Yser. Seu objetivo era negar as pontes e o sistema hidráulico ao inimigo pela inundação. Os alemães trouxeram mais morteiros pesados, e o bombardeio intensificou. As primeiras tentativas de passar pelo rio fracassaram. O bombardeio prosseguiu. Pouco antes do alvorecer de 19 de outubro, em uma volta do rio, os alemães montaram uma ponte improvisada e se estabeleceram na margem esquerda.

Durante a noite do dia 22, duas divisões, 20.000 homens, tinham se espalhado pela cabeça de ponte. Não demorou muito e tinham rompido pelo Yser em diversos outros lugares. Os alemães avançaram com todas suas forças; os belgas e os franceses recuaram ao longo da linha. Ataques e contra-ataques foram repelidos. Formações dissolviam-se e unidades se misturavam umas com as outras. Cadáveres de todos os tipos se transformavam em abrigo.

O combate se espalhou pela noite. Na escuridão, trincheiras eram capturadas e recapturadas; homens pisoteavam os mortos e os feridos caídos na lama. Nem a chuva conseguiu parar os incêndios que queimavam as povoações. Até o rio Yser pegou fogo por causa de óleo que foi derramado. Na cegueira os camaradas estavam disparando uns contra outros, não conseguiam enxergar nada.

No dia 24, os alemães trouxeram artilharia pesada, muitos soldados belgas fugiram para a retaguarda; aqueles que permaneceram para lutar cavaram ao longo de sua última linha de defesa, o aterro ferroviário. Quatro batalhões de uma divisão francesa, 4.000 homens, apareceram no centro da linha belga; Foram suficientes para parar o avanço alemão. Os belgas foram salvos de novo no dia 25, uma forte chuva vinda do mar caiu, transformando-se em uma tempestade. Houve uma pausa nos combates. Os atacantes estavam tão desgastados quanto os defensores; suas perdas, também, tinham sido pesadas, e não tinham mais a superioridade numérica de uma semana antes.

Na madrugada, o estado maior em Furnes foi alertado que o general Ferdinand Foch, comandante dos exércitos franceses no norte, queria deixar entrar o mar ao redor de Dunquerque. Os belgas entraram em desespero. Uma massa d‟água na sua retaguarda cortaria sua principal linha de retirada. Foi necessário um apelo direto de Alberto ao general Joffre para que a ordem de Dunquerque fosse retirada, caso contrário os sobreviventes estariam cercados pelas águas e pelo Exército alemão. Jofre atendeu ao apelo desde que se encontrasse uma saída para barrar os alemães.

Um plano de inundação foi proposto; um juiz chamado Emeric Feys, informou que a inundação do rio Yser já tinha salvado Nieuport de exércitos inimigos. Preparativos improvisados tiveram que ser feitos. Soldados do corpo de engenharia começaram fechar os 22 bueiros ao longo do aterro ferroviário. Na manhã do dia 26 de outubro os alemães atacaram. Mais uma vez a chegada de novos batalhões franceses impediu a ruptura na linha do aterro.

O estado maior belga preparou planos para uma retirada. Quando soube disso, Alberto teve um acesso de raiva. O aterro seria mantido. Ele estava convencido que a ofensiva alemã estava começando a se esgotar. Os alemães não atacaram no dia seguinte, nem no dia 28, estavam concentrando suas forças para um ataque final. Os preparativos para a inundação foram avante. O segredo foi mantido. Entretanto as marés foram baixas e foram incapazes de deixar entrar muita água. Então as comportas das reclusas travaram fechadas.

A experiência tinha fracassado, os belgas teriam que tentar um dos cursos d‟água nas pontes dinamitadas e esperar dois dias pela volta das marés altas, mas eles não podiam esperar, o Exército alemão já teria dominado tudo. Neste momento um capitão de engenheiros encontrou um barqueiro flamengo chamado Hendrik Geeraert. Ele sugeriu que tentassem um rio chamado de Noordvaart, que corria entre o aterro ferroviário e o Yser antes de desaguar no canal principal em Nieuport.

Às 19h30 da noite de 29 de outubro, Geeraert escoltado por metralhadoras e por carabineiros entre as árvores de uma pequena ilha alcançou o Noordvaart, com suas oito comportas-vagão. Na margem oposta, ocultas por um grupo de arbustos, estavam as engrenagens que levantariam estes portões. Começou a trabalhar, a água do mar avançou com força, logo inundando as margens do Noordvaart e se espalhou pela planície. Nas poucas horas conseguiu dar entrada a grande quantidade de água.

Num dos combates travados em um celeiro, o estábulo de uma fazenda havia muitos feridos, não era possível retirá-los, pois os alemães bombardeavam sem parar e cantavam com a vitória bem próxima aos seus olhos. No campanário em Pervyse os alemães estavam atacando através dos campos molhados, avançando em formação cerrada. Naquela noite os alemães atingiram a última linha de defesa belga (o aterro ferroviário).

Pelas 04h30 da manhã do dia 30, um bombardeio terrível tomou conta do lugar. Ao amanhecer os alemães estavam avançando contra o aterro em plena força, a vitória estava próxima. Em Pervyse, os atacantes jogaram granadas onde estavam alojados os oficiais belgas que foram expulsos com seus soldados de Ramscappelle. O caminho estava aberto, os franceses estavam perdidos...

Milagrosamente pelo meio dia, o fogo alemão começou a diminuir. Apesar de não terem atravessado a povoação até o dia seguinte, parecia que a força principal alemã havia sido paralisada. Um milagre havia acontecido, quando constataram uma grande inundação, de onde teria vindo tanta água que fizesse os alemães fugirem? Será que Deus havia arrasado os alemães com água, assim como fez no Mar Vermelho, afundando os egípcios que perseguiam os hebreus. Realmente um milagre havia acontecido. O regimento belga entrou em Pervyse sem oposição. Foram encontramos vários corpos de alemães e poucos feridos que foram feitos prisioneiros. O inimigo tinha recuado por causa da inundação.

O segredo de Alberto tinha sido bem mantido. A inundação invencível e implacável espalhou-se enchendo canais, nivelando valas, estradas, e as crateras de granadas. A água cercava terrenos, para onde grupos de soldados fugiam inundados. Os alemães entraram em pânico quando sentiram o chão desaparecer. Não podiam mandar reforços para frente e tudo o que podiam fazer era se retirar. Os canhões afundavam na lama e tiveram que ser abandonados. A água escondia valas e riachos, nos quais os homens mergulhavam sendo forçados a se renderem, feridos se afogavam ou morriam.

Os alemães não suspeitaram da causa e a atribuíram às pesadas chuvas, não fizeram nenhum esforço para tomar o sistema hidráulico de Nieuport. Não fosse pela decisão de Alberto de inundar, Ypres teria sido tomada pela retaguarda nos dias seguintes. O barqueiro Hendrik Geeraert se tornou herói nacional.

Tinha sido criada uma laguna artificial indo de Nieuport até Dixmude, e do aterro até o Yser, cerca de cinco quilômetros de largura e com quinze quilômetros de comprimento. Corpos, humanos e de animais, flutuavam entre os destroços de capacetes de couro, mochilas e cartucheiras. Algumas semanas depois do término da batalha, os belgas estenderam a inundação, fechando os bueiros nos diques ao longo do trecho do Yser, abaixo de Dixmude. A inundação agora formava um círculo de trinta e cinco quilômetros, fechando a fronteira com a França.

Os belgas não saíram desses limites lamacentos, Alberto firmemente impediu que suas tropas participassem das aventuras ofensivas de seus aliados que viriam. O exército de Alberto sofreu uma grande baixa por fogo inimigo, mas perdeu grande número devido a doenças. O Yser era o setor mais insalubre da frente ocidental. Uma epidemia de febre tifoide tinha matado 2.500 belgas. Era uma perda terrível, mas Alberto barrou os alemães e vingou-se deles através do rio Yser. A vitória provocou a derrota do general alemão Falkenhayn contra as forças aliadas de Sir John French e Ferdinand Foch, que lutavam em Ypres.





No final de julho de 1914, quando as hostilidades tiveram início, o barão Conrad von Hotzendorff era o comandante supremo das forças austríacas, que lutariam 
contra os sérvios e russos. Hotzendorff confiou ao seu subordinado: general Oskar Potiorek (governador da Bósnia) a missão de destruir a Sérvia, acreditava que Potiorek podia cuidar do recado, visto que era um país mais fraco do que a Rússia.

O comandante austríaco viajou então para comandar pessoalmente a batalha contra os russos e acreditou que os sérvios seriam facilmente derrotados. O general Potiorek estava ansioso para destruir os sérvios, ele havia sido responsável pela segurança do arquiduque Ferdinando, e estava perto quando o herdeiro do trono foi assassinado.

No dia 12 de agosto, o Exército austríaco invadiu o território sérvio, mas subestimou os inimigos que eram experientes em táticas de guerrilha e resistiram ferozmente. Até o dia 24 de agosto, Potiorek havia sido expulso de todo o território sérvio pelo marechal Putnik. No dia 06 de setembro, os sérvios não se contentaram em expulsar os inimigos de seu território, e avançaram pela fronteira austríaca com muitas dificuldades, mas acabaram chegando até Saravejo (capital da Bósnia).

A ocupação durou apenas 40 dias. No dia 06 de novembro, o general Potiorek derrotou o marechal Putnik obrigando-o a dispersar seu exército através de colinas abarrotadas de neve. Os austríacos invadiram novamente a Sérvia provocando um colapso nos infantes inimigos, a capital Belgrado caiu em mãos austríacas no dia 02 de dezembro.

O rei Pedro da Sérvia autorizou a volta de seus soldados para casa, e aqueles que desejassem poderiam continuar resistindo junto com ele. O rei assumiu a Linha de Frente junto com seu filho, o príncipe Alexandre; que era o comandante geral do Exército sérvio. Apesar de possuir setenta anos, Pedro tomou nas mãos uma carabina e começou a atirar contra os invasores austríacos, esse ato corajoso levou os sérvios a resistir; o marechal Putnik expulsou os austríacos de Belgrado e do resto do país.

O inverno se mostrava indestrutível, o exército de Potiorek limitou-se a ficar na fronteira da Sérvia. A Áustria havia mobilizado 200 mil soldados contra a Sérvia, mas já havia perdido 40 mil, mesmo com a enorme superioridade acabou derrotada, a Sérvia foi o único país aliado a sair vitorioso em 1914. Após a retirada de Belgrado, o general Potiorek pediu sua dispensa do comando, visto que sua saúde estava bem agravada, acabou realizando uma saída à francesa. Apesar da vitória as coisas não estavam nada bem para os sérvios, haviam contraído tifo do Exército austríaco; a peste estava dizimando os soldados do marechal Putnik.

Na catastrófica Batalha de Tannemberg foram feitos 92 mil prisioneiros russos, além de 50 mil mortos ou feridos. Tannemberg evitou que o Exército russo invadisse a Silésia e cercasse Berlim. Tannemberg havia arrancado grandes forças russas, mas inda não estavam derrotados, pois o Czar dispunha de milhões de homens prontos para lutar, mas se de um lado eles tinham sobra de material humano, por outro sofriam de escassez de armas e alimentos.

A maior parte do Exército russo estava concentrada ao sul da Polônia para enfrentar os austríacos, era um grande front de 300 milhas. Protegendo os austríacos havia duas enormes fortalezas (Lemberg e Przemysl). Na guerra contra os russos, os austríacos levaram os pior, liderados pelo general Conrad von Hotzendorff foram empurrados até Cracóvia, onde sofreram uma pesada derrota sendo forçados a recuar até Varsóvia.

A fortaleza de Lemberg logo caiu em mãos russas. A enorme fortaleza austríaca Przemysl foi abandonada com 150 mil soldados austríacos, ela foi sistematicamente cercada e destruída aos poucos. Os russos queriam vencer os habitantes pela fome, com suas forças exauridas, os soldados austríacos começaram a comer os próprios cavalos. O lugar era o inferno na terra, tornou-se uma ilha cercada de russos por todos os lados, que a incendiava e bombardeava o tempo todo.

O imperador austríaco Francisco José Habsburgo possuía 1 milhão e 800 mil soldados, 300 mil já haviam sido feitos prisioneiros e 100 mil mortos pela gigante Rússia. Os austríacos tiveram também que mobilizar seus homens contra a Itália, que havia sido aliada da Alemanha antes da guerra, mas diante da promessa de território pelos aliados, resolveu invadir a fronteira austríaca perto do rio Isonzo.





Em 1914, o ministro de guerra britânico, Lord Kitchener, precisava aumentar em mais de 500 mil homens o contingente do seu exército, para conseguir combater os alemães. A Grã-Bretanha não possuía serviço militar obrigatório. Então milhares de pôsteres com palavras apaixonadas em defesa da pátria conquistaram a simpatia de jovens. Como resultado da propaganda, 250 mil garotos com idade entre 13 e 16 anos embarcaram para o Front. Oficialmente o alistamento militar era restrito a maior de 18 anos, mas as autoridades inglesas fingiram não ver nada.

Os oficiais instigavam os jovens de 16 anos afirmarem que tinham 19 e que estavam aptos para a batalha. Muitos jovens australianos e canadenses falsificaram a nacionalidade para servir no Exército britânico. Em outubro de 1914, na primeira batalha da cidade belga de Ypres, a Força Expedicionária Britânica apresentou oito divisões formadas por adolescentes. Quando os pais souberam das notícias horríveis vindas da França, pediram ao governo que trouxesse seus filhos de volta. Centenas retornaram, mas outros preferiram ficar nas batalhas com os amigos, 250 mil foram enviados para o Front, 120 mil morreram em combate.

Enquanto isso, em todas as frentes de combate durante 1914 os corpos dos soldados eram abandonados, e qualquer um que tentasse resgatar os restos mortais de um amigo se tornava alvo das metralhadoras, atiradores de elite e granadas inimigas. As trincheiras haviam se tornado covas rasas, os combatentes passaram pelas piores situações, inclusive o odor terrível dos excrementos e dos cadáveres em putrefação.

A Europa estava tomada por buracos lamacentos, tingidos de sangue e infestado por ratos. As trincheiras estendiam-se do litoral holandês, no Mar do Norte, ao longo da fronteira com a Alemanha, até a Suíça no Front Ocidental. O Front Oriental ia do Golfo de Riga, na Letônia, até o Mar Negro, na Romênia, passando pela Ucrânia.

Havia trincheiras também nos Alpes italianos e na fronteira da Itália com a Áustria. As doenças causadas pelas péssimas condições sanitárias era outro terrível problema, morria-se de disenteria, gripe e todo tipo de infecções. A fome era outro fator devastador, os soldados estavam sempre mal alimentados. Um dos objetivos ao atacar o inimigo era roubar sua comida, lançavam-se desesperadamente a fim de apoderar-se das latas de comida que conseguissem apanhar, e a situação tornara-se tão insuportável que o meio encontrado para abrandar o sofrimento foi embebedar-se.

Os campos de batalha estavam abarrotados de cavalos, milhares foram enviados por todas as zonas de guerra, pois eram muito úteis e se transformaram na principal força motora, a maioria morreu de exaustão.
Na África, dia 26 de setembro de 1914 teve início a Batalha de Sand Fontein (Namíbia). Em novembro aconteceu o ataque anfíbio de tropas inglesas e indianas contra o Porto de Tanga, mas acabaram derrotados e se retiraram.
No dia 22 de setembro, o submarino alemão U-9 afundou os cruzadores ingleses; Aboukir, Hogue e Cressy no litoral da Holanda. No dia 01 de novembro, a frota do almirante alemão Maximilian von Spee derrotou a esquadra britânica no litoral do Chile (Batalha de Coronel).

Em 03 de novembro, o Mar do Norte foi declarado setor militar pela Inglaterra, deu-se início o bloquei naval, para impedir a entrada de alimentos e matérias-primas para a Alemanha. No dia 08 de dezembro, a frota britânica se vingou dos alemães nas Ilhas Malvinas (Batalha de Falklands) e destruiu quase toda a frota do almirante Von Spee. No dia 16 de dezembro, cruzadores alemães bombardearam as cidades inglesas de Scarborouch, Hartle Poll e Whitby.

No dia 20 de dezembro, no primeiro ataquem com minas, os alemães escavaram túneis sob as posições britânicas em Givenchy. Em 21 de dezembro os turcos iniciaram uma grande ofensiva contra os russos no Cáucaso, mas foram derrotados e os russos avançaram contra eles até o Lago Van.

A granada com haste alemã é apelidada pelos ingleses de “Amassador de Batatas“ por causa do seu formato. O tradicional capacete prussiano Picklhaube com ponteira de aço, usado pelo Exército alemão começava a se tornar obsoleto.





No Natal aconteceu uma trégua entre britânicos e alemães, na parte sul do saliente de Ypres. Ela ocorreu também em vários outros pontos do Front e por outros combatentes. O Natal foi iniciado pelas tropas alemãs posicionadas em frente às forças britânicas, onde uma distância curta separava as trincheiras ao longo da Terra de Ninguém.

Muitos soldados alemães tinham começado a montar árvores e adorná-las com velas acesas. A seguir foram ouvidos cânticos de Natal, cantados em alemão. Os ingleses responderam em alguns lugares, com seus próprios cânticos. Os soldados alemães que sabiam inglês gritaram votos de Feliz Natal para Tommy (o nome popular dos alemães para o soldado britânico); saudações similares foram retribuídas da mesma maneira para Fritz (nome popular dos britânicos para os soldados alemães).

Em algumas áreas, soldados alemães convidaram os ingleses para avançar pela Terra de Ninguém e visitá-los. A notícia se espalhou, histórias começaram a se difundir sobre visitas trocadas entre as forças aliadas (incluindo algumas francesas e belgas) e os inimigos alemães. Essas visitas não eram apenas aos soldados rasos: o contato inicial foi feito entre oficiais, que definiram em conjunto os termos da trégua, acrescentando o quanto seus homens poderiam avançar em direção às linhas inimigas. Estes termos permitiam o enterro das tropas de cada lado que estavam ao longo da Terra de Ninguém, alguns mortos há apenas uns dias, enquanto outros haviam esperado meses por um funeral.

Homens das equipes encarregadas dos funerais entraram em contato com os membros das equipes similares do inimigo quando, então, conversas se desenrolaram e cigarros foram trocados. Cartas foram encaminhadas para serem entregues para famílias ou amigos vivendo em cidades ou vilarejos invadidos pelos alemães. Houve até uma partida de futebol entre o regimento inglês de Bedfordshire e as tropas alemãs. O jogo foi interrompido quando a bola foi murchada após atingir um emaranhado de arame farpado.

Em muitos setores a trégua durou até a meia-noite de Natal; enquanto em outros durou até o primeiro dia do ano seguinte. Os Governos aliados e o Alto-Comando Militar reagiram com indignação. Quase imediatamente à trégua, as mensagens enviadas chegaram para os familiares e amigos daqueles servindo no Front. Estas cartas foram rapidamente utilizadas por jornais locais e nacionais (incluindo alguns na Alemanha) e impressas regularmente.

Os soldados na linha de frente expressaram seu espanto com os eventos do Natal de 1914. Precauções especiais foram tomadas para que a trégua de Natal jamais fosse repetida. Os eventos do final de dezembro de 1914 foram proibidos. Investigações foram conduzidas. Foi um evento espontâneo, que ocorreu em alguns setores. A trégua de Natal no Front Ocidental foi a mais surpreendente e, certamente, a mais espetacular de que já teve notícia na história da humanidade.

Mesmo naquele pacífico dia de Natal, a guerra não foi completamente esquecida; muitos dos soldados que apertaram as mãos do inimigo em 25 de dezembro observaram a estrutura das defesas, para que se pudesse tirar vantagem em qualquer falha dos inimigos no dia seguinte.

O Kronprinz (príncipe herdeiro), Guilherme, filho do Imperador Alemão, encarregou-se pessoalmente de humilhar e punir os soldados alemães que confraternizaram com os aliados, muitos foram enviados em vagões de trem para setores onde a morte era certa, por causa do frio; principalmente para a Rússia.

Apesar da Trégua de Natal, aquele ano havia sido terrível para ambos os lados, Trezentos e seis mil franceses haviam perdido a vida em menos de seis meses, o Exército francês possuía dois milhões de homens, ou seja, em poucos meses a França perdeu quase 20% dos seus homens. Os alemães também tiveram pesadas baixas (241 mil soldados). Aquela guerra era a mais desumana e mortal da História.


Já ia tarde da noite, quando o cansaço das lembranças de 1914 forçou o capitão Gerrard adormecer na cama do hospital. Roxanne o envolveu num cobertor de lã de carneiro, e se retirou enquanto o capitão estava em sono profundo. 







Max Wagner tem 40 anos, nasceu e foi criado em Ribeirão Preto-SP, atualmente mora perto de Fernandópolis-SP, é casado e pai de três filhos, cursou Letras, mas não terminou o curso, depois graduou-se em História pela Unifran. O escritor é poeta, romancista, historiador, e editor-fundador da Maxibook editora e livraria. Há vinte anos pesquisa sobre as duas guerras mundiais, autor do romance “A Última Poesia” que retrata a Primeira Guerra Mundial, publicado pela Chiado Editora de Portugal. Coautor da  Bíblia Comentada Chapter a Day – O Velho Testamento do canadense Norman Berry.

É membro correspondente da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto, Casa do Escritor e do Poeta de Jales, e dos Médicos Escritores e Amigos de Ribeirão Preto, já participou de algumas antologias e da Feira do Livro de Ribeirão Preto 2014, 2015 e 2016, Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2016, Feira do Livro de Jales 2016.

 É colunista da Saga Literária, um site que escreve resenhas para várias editoras, e do Frontcast, um grupo de historiadores que grava entrevistas sobre literatura e história militar. Também Possui um blog onde escreve sobre seus livros, história militar, literatura e cinema. Foi um dos vencedores do Prêmio de Poesia Moderna do Comércio de Ribeirão Preto.