terça-feira, 29 de novembro de 2016

DO ORGULHO NASCE A GUERRA - CAPÍTULO 5 (O JULGAMENTO)

  

V
   O JULGAMENTO 
              
   “NO MEIO DO INFERNO UMA CRIANÇA ALEMÃ É RESGATADA. A ÚNICA SOBREVIVENTE DE UM MASSACRE, UMA CARNIFICINA QUE FORA FRUTO GERADO PELO ÓDIO E RIVALIDADE ENTRE FRANCESES E ALEMÃES.

 ATÉ QUANDO OS HOMENS VÃO SE ODIAR? A GANÂNCIA, O ORGULHO E O PRECONCEITO ESTÃO SOLTOS SERVINDO DE ALIMENTO NO CORAÇÃO DOS HOMENS. ENTRETANTO NADA PODE VENCER O AMOR, SENTIMENTO QUE NÃO CONHECE PÁTRIA OU REVANCHISMOS, ALGO QUE VAI ALÉM DO ENTENDIMENTO HUMANO. SÓ O AMOR PODERÁ VENCER QUALQUER COISA E UNIR 

QUALQUER NAÇÃO... O AMOR PATERNAL ENTRE UM


 GUERREIRO FRANCÊS E UM BEBÊ ALEMÃO SERÁ JULGADO E 


DISPUTADO. É A LUTA DO ÓDIO CONTRA O AMOR, QUE VENÇA


 O AMOR...“




O capitão Gerrard regressou à Força Aérea, embora Roxanne tivesse implorado várias vezes para que ele encontrasse uma forma de ajudar administrativamente, sem precisar ir para os duelos aéreos. Entretanto não foi possível, ele estava sob ameaça de ser preso por deserção, a Guerra precisava dele mais do que nunca...

O comandant Félix Brocard, líder do Esquadrão Stork, designou uma missão para o capitão Gerrard. Ele fora escolhido para formar e liderar uma nova esquadrilha. Recrutaria dez pilotos valorosos e Razan seria seu adjudant. O capitão Gerrard aceitou sua nova missão, mas com uma ressalva, não queria Razan na esquadrilha. Entretanto Brocard o advertiu que deveria resolver seus problemas pessoais com Razan.  Gerrard acabou cedendo a pressão, porém deixou bem claro que Razan deveria acatar todas suas ordens, e qualquer insubordinação o colocaria fora da esquadrilha.

No mês de setembro de 1918, Gerrard e Razan embora apáticos um ao outro, passaram escolhendo e ajustando os novos pilotos. Gerrard e seus pupilos seriam enviados para o setor de Saint Mihiel, onde uma ofensiva americana seria realizada com o apoio de ingleses e franceses.

 Um baile foi oferecido aos famosos pilotos aliados, seria realizado em um castelo nos arredores de Paris. Após o baile, os pilotos de licença em Paris deveriam partir para St. Mihiel. A maior ofensiva aérea de toda a guerra estava sendo preparada; mil e quinhentos aviões aliados deveriam se reunir no setor.

Na festa, a nova esquadrilha liderada por Gerrard foi apresentada aos fotógrafos. Pilotos americanos, britânicos e franceses reuniam-se no castelo, onde eram ovacionados e reconhecidos.  Razan logo marcou presença nas festividades. Gerrard deixou Richard aos cuidados de Natalie (Nána), uma negra americana que ajudara na educação de Roxanne quando perdeu a mãe. O capitão estava apreensivo, porque Roxane demorava muito para chegar.

Uma mulher com um longo vestido vermelho transparente, com chapéu combinado com a cor, desfilava de mãos dadas com um jovem e bonito coronel americano. Todos os olhares estavam fixos neles. Era Madame Ormond com seu novo namorado, muitos comentavam que a família do coronel era muito rica.
Jean Navarre surgiu conduzindo Charles Nungesser numa cadeira de rodas, Gerrard os avistou e foi falar com eles. Em seguida reuniram-se no bar do castelo para fumar e degustar uma bebida.

– Soube que voltou a voar Nungesser?  – perguntou Gerrard.

– Oui, eu voltei e estou muito animado para derrubar mais alguns boches.

– Você está se arriscando muito meu amigo, já fez tudo que podia fazer pela Nação, pare de se arriscar dessa maneira, vai acabar morrendo.

– Para morrer basta estar vivo.

– É deprimente o modo como tiram Nungesser da cadeira de rodas e o colocam no avião – acrescentou Navarre.

– Vamos parar com isso! E você Gerrard está ansioso para voltar ao front? – perguntou Nungesser.

– Nenhum pouco. Se já não bastasse ter que formar uma nova esquadrilha, deram-me a missão de perseguir sem tréguas a Jasta 15 do Grupo 2.

– Está correndo por aí o comentário de um aviador alemão da Jasta 15, de nome Georg von Hantelmann, que tem uma caveira pintada em seu avião, eu não me importo, eu também tenho a minha insígnia de caveira. Se permitissem, eu mesmo acabaria com esse Hantelmann – Esbravejou Nungesser.

– Não delire Nungesser, não era nem para você vir ao baile, deveria estar em repouso – acrescentou Navarre.

De repente, entrou uma dama que vestia da cabeça aos pés um garboso vestido de seda branca e estava com o cabelo preso, era uma mulher linda e todos a admiravam muito. Os homens ficaram boquiabertos com a presença dela e desejavam que ela fosse sua mulher ou pelo menos que fosse sua companhia naquela noite. Ela ofuscou totalmente a beleza da Madame Alfazema.

Muitos pilotos separaram-se das damas que os acompanhavam e iam à direção daquele vestido branco, transparente e decotado; eles convidavam-na a acompanhá-los, porém ela fingia não ouvir e continuou caminhando na direção de Gerrard. Quando ela já estava próxima ao capitão, Nungesser brincou:

– Olha só capitão, aquela linda mademoiselle vem na minha direção, olha lá Gerrard!

O capitão olhou e quase se engasgou com o  conhaque  que estava bebendo. A moça ficou diante dele e disse:

– E aí, chéri, não vai me convidar para dançar?

Nungesser ironizou:

 – Você vive dizendo que a sua enfermeira americana é linda, entretanto omitiu que ela é uma assassina de corações – Gerrard e Roxanne enrubesceram.

– Ah mademoiselle, se eu pudesse sair dessa cadeira de rodas, eu mesmo a levaria para dançar – risos.

– Monsieur Nunguesser é muito galanteador – elogiou Roxanne.

 Nungesser tomava conhaque quando foi censurado por Jean Navarre:

– Você sabe que não pode beber, vai prejudicar sua recuperação.

– Acha que eu vou deixar aquele maldito René Fonck me ultrapassar no ranking de abates! Nunca! Eu sei que pareço um retalho humano, um monstro costurado, mas não vou deixar que me vença!

– Você está bêbado – alertou Navarre.

– Eu não sei o que deu em Navarre, tornou-se paranoico e depressivo, quer cuidar de mim como se fosse minha mãe, ele não é minha mãe! Não é madame Nungesser! Eu não vou morrer como o irmão de Navarre!

– Melhor levá-lo para casa, ele não está bem – aconselhou Gerrard.

   Em seguida, o comandante Félix Brocard anunciou a apresentação da nova esquadrilha. Gerrard dirigiu-se à frente e convidou Razan e os seus dez pupilos escolhidos para serem apresentados à imprensa e tirar mais fotos. Todos estavam em volta dos pilotos e faziam perguntas paralelas, a maior parte delas girava em torno das futuras ofensivas aéreas. Gerrard respondera que a nova esquadrilha daria sua participação e não decepcionariam. Com muita dificuldade conseguiu livrar-se de todos e foi encontrar-se com Roxanne.

Gerrard estava muito garboso, usava um smoking com medalhas espalhadas pelo peito e uma echarpe branca em volta do pescoço. Muita música embalava os namorados. Há mais de um mês Gerrard e Roxanne flertavam, mas a timidez os impedia de se declarar. O casal começou a dançar; sorrir, comer, beber além da conta e, então, Roxanne disse:

– Lembra-se da nossa aposta? Richard está sob minha guarda... Eu ganhei esse jogo e quero o meu prêmio.

– E qual é esse prêmio mademoiselle?

– É preciso dizer?  Será que você ainda não percebeu?

Gerrard tocou-lhe os cabelos dourados e eles mergulharam num caloroso e profundo beijo de amor. Ainda atordoada por aquela sensação, Roxanne tomou fôlego e indagou:

– Só por curiosidade, tivesse sido você o ganhador, o seu pedido teria sido o mesmo?

– Não, Roxanne. Eu teria sido ainda mais ousado, iria mais longe e quebraria barreiras.

– Você está me deixando curiosa... O que você pediria?

Um minuto de silêncio se deu no meio daquele salão e, como se não existisse ninguém além deles ali, pararam sem que se ouvisse um rumor e Gerrard respondeu à pergunta dela:

– Você quer se casar comigo?

Roxanne mal podia se conter de tanta felicidade, era uma loucura, tudo tão rápido, mas ela respondeu:

– Claro... Que sim! O que eu mais quero na vida. Oh, você é um amor!

Em seguida Roxanne deu um pulo abraçando Gerrard fortemente. Ele tirou um anel de diamantes e o colocou no dedo da moça que quase desmaiou de tanto deslumbramento, estava consumado o noivado. Em seguida Roxanne beijou Gerrard, selando aquele amor para sempre.

Madame Ormond estava tão irritada com a presença de Roxanne que foi embora.  Assim que a música cessou e as luzes se apagaram, o casal aproveitou e saiu discretamente, adentrando um Renault preto rumo à estância da Princesa e do Plebeu. Seguindo o curso do rio Sena, atravessaram uma delgada orla de florestas que se confundia com a revoada das pombas embaladas de sonolência, trazendo encantamento como que avisando que o grande momento de amor de Gerrard e Roxanne havia se pronunciado.

O casal escolheu o mais belo recanto da estância e ali se instalaram; com simples toques de amor e sinceras carícias. Gerrard foi percorrendo todo o corpo de sua amada, que soltou seu longo cabelo sedoso. Os olhos da moça, de um azul arrebatador hipnotizavam Gerrard, e já nus tocavam-se mutuamente quando ela disse ao capitão:

– Eu só amei a um homem em toda a minha vida: esse homem é você, Gerrard. Amo-o e o amarei por todo o sempre... Eu prometi a mim mesma que só me entregaria ao homem que eu amasse de verdade. Eu somente me entregarei para o homem que eu amo verdadeiramente: só para você, Gerrard. Eu quero que você seja o primeiro e único. Chéri faça-me mulher e me ame.

– Eu a amo Roxanne.

No meio daquela relva espessa, debruçados sobre um lençol de cetim escarlate, concretizou-se um lindo e inesquecível amor. Seus corpos brancos como porcelana se entrelaçavam, confundindo-se com as cores que os rodeavam numa completa sintonia. Daquele momento em diante, Gerrard passou a chamar Roxanne carinhosamente de Roxy.

 Gerrard e sua amada conversavam descontraidamente quando ele lhe perguntou: – Por que seus pais escolheram seu nome?

– Meu pai era médico em Nova Orléans, quando saiu de férias visitou a França, conheceu minha mãe, uma talentosa violoncelista francesa e apaixonada pela literatura de Edmond de Rostand. Logo se casaram na França e depois foram morar na América.

– Agora compreendo, seu nome foi escolhido para homenagear a musa inspiradora do espadachim e poeta Cyrano de Bergerac.
– Sim, eu sou Roxanne e você é meu Cyrano.

– Eu manejo bem a espada, porém sou péssimo poeta, e além do mais, eu não tenho o charmoso narigão de Bergerac.

O casal caiu na gargalhada e horas se passaram sem que Gerrard se lembrasse da guerra, pois tudo parecia perfeito ao lado de Roxanne. Àquelas horas e momentos que viveram juntos se tornaram inesquecíveis. Gerrard precisava levar para Saint Mihiel boas lembranças, pois o pior estava por vir...

Alguns dias depois um carro militar chegou à estância para levar Gerrard ao aeródromo, partiria com seus pilotos para St. Mihiel. No aeródromo perto de Paris, havia 12 aeronaves Spad, pintadas de verde oliva com uma cegonha branca na fuselagem. Gerrard não permitiu que Razan pintasse seu avião de preto (sua cor tradicional) porque poderia ser confundido nos duelos. Todos deveriam ter suas aeronaves na cor verde, entretanto Razan conservou sua insígnia, Belphégor - a potestade da França, criador  da  guerra  na  Europa  e  inventor  das  armas  de  destruição. No caça de Gerrard havia a inscrição “Roxy” em vermelho, para homenagear seu grande amor Roxanne Mondevoir Saron.

Enquanto os aviões se preparavam para decolar, Roxanne abraçava o corpo de Gerrard enquanto dizia:

– Não vá Gerrard! Fique comigo e com Richard. Se você for, poderá morrer e nós não queremos perdê-lo.

– É impossível ficar Roxy. Você sabe muito bem disso. É o meu dever: não posso abandonar nosso país.

Já prestes a decolar, Gerrard abraça seu amor fortemente  enquanto ela lhe diz:

– Não diga adeus Gerrard, pois eu tenho certeza de que você vai voltar.
  – Eu a amo, Roxy...  Au revoir mon amour.


A ventania produzida pelas hélices das aeronaves levantava os cabelos do casal, enquanto se abraçavam e mergulhavam num profundo beijo de amor...

A esquadrilha logo alçou voo enquanto deixavam uma listra de fumaça para trás. Entraram em formação e voaram em direção de Verdun. O objetivo da ofensiva de Saint Mihiel era capturar a cidade de Metz.  A região era o inferno na terra; chovia muito, a água torrencial transformava o lugar num mar de lama. Depois do barro, surgiam as impenetráveis trincheiras alemãs, com ninhos poderosos de metralhadoras, e todas as armas de destruição alemãs, era esse inferno que os americanos tinham que transpor.

Três corpos do Exército estadunidense atacariam ao lado do 2º  Corpo  Colonial  francês, sob o  comando  do  general  Ernest  Joseph  Blondat. Quinhentas aeronaves alemãs foram enviadas para o setor para combater um número maior de aviões aliados, era a maior concentração de aviões de toda a guerra.

O Grupo 2 de combate de caça alemão era a ponta de lança da aviação alemã, fazia parte do Circo Voador (esquadrão aéreo criado pelo Barão Vermelho e formado por 4 grupos). O Segundo Grupo contava com 50 aeronaves de caça de elite, eram comandados pelo ás Oscar Von Boenik, que havia substituído Rudolph Berthold. Eles eram a esperança alemã.

O general americano John Pershing (O Jaqueta Negra), comandante das forças americanas na França, conseguira permissão do marechal Ferdinand Foch para concentrar um ataque audacioso e mortal contra os alemães com o apoio de ingleses e franceses. A chuva e a lama estavam mostrando que esse ataque poderia falhar, entretanto Pershing estava convencido de que a vitória final estava próxima.

As trincheiras alemãs estavam estendidas desde a área fortificada de Verdun passando ao Sul de Saint Mihiel até o Leste de Pont-Au-Mousson. Os tanques e a infantaria teriam muitas dificuldades para atravessar a lama, por isso a aviação era tão importante para a vitória aliada, sem ela não seria possível vencer a batalha.

O general Pershing confiou o sucesso da operação por terra aos blindados do intrépido coronel americano George Patton e a 42ª Divisão Rainbow do brigadeiro-general Douglas MacArthur, a audácia e intrepidez de seus soldados seriam vitais para o sucesso.

O coronel americano da força aérea William Mitchell (Billy Mitchell) teve um papel fundamental na organização dos aeródromos e dos grupos de caça que atacariam. O major francês Paul Armengaud, era o chefe de toda Força Aérea Francesa que operava em St. Mihiel. Armengaud colaborou de todas as formas com os americanos para que atacassem em conjunto com seus aviões. Os aviadores britânicos também participariam dos ataques aéreos, mas individualmente.

Numa manhã de setembro de 1918, a esquadrilha do capitão Gerrard de Burdêau pousara no aeródromo francês em St. Mihiel, debaixo de uma torrencial chuva. Após acomodarem-se em seus alojamentos, os pilotos reuniram-se para ouvir o capitão Gerrard e seu amigo Maurice Boyay, um grande ás francês com 35 vitórias. Gerrard e Boyau contavam sobre seus grandes feitos enquanto todos observavam admirados.

No dia 12 de setembro, uma enorme leva de soldados aliados avançou a lama, as trincheiras e os ninhos de metralhadoras alemãs, enquanto os aviões aliados metralhavam e bombardeavam os alemães. A chuva havia dado uma trégua, mas muitas nuvens cinzentas obscureciam o céu, ainda assim a ofensiva prosseguiu...

Os aviões franceses e americanos partiam para o combate em números incontáveis. Gerrard com sua esquadrilha voava por uma concentrada fileira de balões de observação que cobriam o céu, logo as Archie (baterias antiaéreas alemãs) tentavam atingir os aviões inutilmente.

As aeronaves alemãs do Grupo 2 atiravam-se como vespas em cima dos americanos e franceses. Nesse dia, o Segundo Grupo aéreo alemão obteve 9 vitórias, duas delas creditadas ao terrível Georg von Hantelmann da Jasta 15, que pilotava um Fokker azul com uma caveira. Ele abateu um bombardeiro americano de manhã e ao fim da tarde derrubou um Spad americano. O piloto era o melhor ás americano nessa altura, o tenente David Putnam, de 13 vitórias, que morreu nesse combate, foi a 10ª vitória de Von Hantelmann, esse acontecimento foi uma tragédia entre os aviadores americanos.

A ofensiva continuava e no dia seguinte Gerrard voava a baixa altitude dando suporte aos tanques, a visibilidade era péssima por causa da névoa. De repente o capitão foi atingido pela macabra visão de um cavalo, que galopava com um oficial alemão sem cabeça. Em poucos segundos as metralhadoras e os tanques aliados destroçaram o cavalo e o que restava do oficial alemão. Nesse mesmo dia o 2º Grupo de Caça Alemão enfrentou novamente os aviadores americanos obtendo 15 vitórias. Mais uma vez Georg von Hantelmann abateu dois caças americanos.

Os pilotos americanos e franceses uniram-se para derrubar Hantelmann, era uma questão de honra abatê-lo. Ainda no dia 13, depois de um voo, Hantelmann dirigia-se à cidade de Messe de carro com mais três aviadores alemães, quando um Spad americano sobrevoou a base alemã e atacou o carro. Desesperadamente tentaram despistar o caça americano, mas algumas balas atingiram o carro ferindo gravemente um dos pilotos alemães, o tenente Kurt Hetze da Jasta 13.

No dia seguinte, 14 de setembro, a luta desesperada continuou, dezenove aviões aliados caíram sob as armas do 2º Grupo, e desta vez Hantelmann abateu três no mesmo dia aumentando o seu score para 15 inimigos derrubados.

No dia 15, Hantelmann abateu dois bombardeiros ingleses, mas foi abatido, ficando ligeiramente ferido. No entanto, continuou a voar e logo no dia 16, último dia da ofensiva em Saint Mihiel, liderou um grupo da Jasta 15, para interceptar caças franceses que atacavam balões alemães.

Gerrard de Burdêau, Razan Stocker e Maurice Boyay participaram desse ataque. Três caças franceses foram abatidos, tendo Hantelmann abatido o seu líder, um caça com um dragão desenhado na fuselagem, era a insígnia do ás francês: Maurice Boyau. Os caças franceses fugiram, mas Gerrard ficou para enfrentar Hantelman, estava possuído de ódio. Durante uns dez minutos ficaram voando em círculos  de frente um para o outro. A raiva estampada no rosto de Gerrard, sua bela aeronave verde reluzia de frente para o Fokker azul de Hantelman. Enquanto se encaravam como duas feras prestes a se atracar. As suas echarpes voavam cortando o vento, nenhum deles conseguia achar uma brecha para abater o outro.

Finalmente Gerrard conseguiu colocar-se atrás de Hantelman e disparou uma rajada curta que atingiu a cauda do alemão. Com expressão de ódio, Hantelman conseguiu fazer um Giro de Imelmann, manobra de contra-ataque alemã, no qual se voa de cabeça para baixo, passando por cima do adversário e coloca-se na sua traseira. O piloto alemão disparou vários tiros contra Gerrard, mas ele realizou a mesma manobra, deixando Hantelmann extremamente admirado, nunca tinha enfrentado um piloto como ele.

Pressentindo o perigo, Hantelmann conseguiu fazer manobras evasivas e fugiu. Gerrard pensou em perseguir aquele desgraçado que havia derrubado Boyau, mas lembrou de Roxanne e Richard e voltou para seu aeródromo. O grande aviador Maurice Boyau de 35 vitórias não resistiu aos ferimentos. Era o segundo ás inimigo na conta de Hantelmann. A morte de Boyay foi um choque para os pilotos franceses, principalmente para Gerrard de Burdêau que jurou vingar a morte de seu amigo.

No fim do dia 16, depois de quatro dias de combates, a ofensiva acabou em sucesso para os americanos, que capturaram 16 mil soldados alemães, 450 canhões e 257 mil armas. O coronel George Patton e o general MacArthur foram responsáveis pela vitória, graças a audácia e intrepidez de seus infantes e tanques que avançaram sobre os alemães entrincheirados. No total 62 aviões alemães foram destruídos contra 63 aliados, 30 balões de observação alemães foram destruídos contra apenas três balões aliados.

A esquadrilha de Gerrard havia abatido oito aeronaves inimigas, das quais três caíram sobre a mira de Gerrard de Burdêau, duas nas mãos de Razan Stocker, e outros três sobre o fogo dos outros pilotos. Ainda assim no dia 17 de setembro, Gerrard de Burdêau e seus aviadores sobrevoaram o local para encontrar a Jasta 15. Porém a famosa esquadrilha alemã acabou interceptando dois Spads americanos. Um deles conseguiu escapar, mas o outro foi apanhado num fogo cruzado e finalmente derrubado por Von Hantelmann, o piloto americano foi capturado.

No dia 18 de setembro, dois Spads americanos, conduzidos pelo grande destruidor de balões Frank Luke e por seu amigo Josef Wehrer, atacaram balões alemães e destruíram dois deles. Georg von Hantelmann partiu com mais cinco pilotos para interceptá-los. O piloto Joseph Wehrer atacou os alemães enquanto Frank Luke destruiu mais um balão. Os seis alemães duelaram com Wehrer até que Von Hantelmann conseguiu atingi-lo, o avião então se despenhou provocando sua morte. O tenente Frank Luke conseguiu escapar, tendo destruído três balões e dois caças alemães que o tinham atacado.

Luke ficou consternado quando informaram que Wehrer fora abatido por caças alemães. Frank Luke queria vingança à todo custo, precisava matar o maldito que ceifou a vida de seu amigo, entretanto o comandante de Luke mandou-o uma semana para Paris em descanso, o jovem piloto só pensava em vingar a morte do seu amigo.

No dia 23 de Setembro, Georg von Hantelmann celebrou a sua 20ª vitória, apesar da ofensiva americana forçar os alemães a recuar. No dia 29 de setembro de 1918, Frank Luke (chamado pela imprensa, O Destruidor de balões do Arizona) estava de regresso, o seu comandante proibiu-o de voar nesse dia por achar que ele estava muito afetado pela morte de Wehrer. Luke ignorou a ordem e após levantar voo lançou um bilhete no seu aeródromo onde informava que iria atacar três balões alemães. Na base, os pilotos americanos observaram o avião de Luke dirigir-se na direção dos balões.

Mais uma vez Luke lançou-se por entre uma terrível barragem de fogo antiaéreo e destruiu os três balões alemães um após o outro. Entretanto a Jasta 15, com oito caças alemães esperava o caçador de balões americano. Após um curto, mas terrível combate, o caça Spad de Luke foi atingido, sua aeronave começou a cair, ainda assim Luke mirou sua metralhadora contra os alemães que estavam no solo matando quantos pudesse até gastar toda sua munição.

O avião de Luke acabou caindo nas linhas alemãs, mas em território inimigo soldados alemães surgiram de todos os lados para capturar o piloto americano. O orgulho falou mais alto e decidiu não se entregar, Luke então puxou do seu revólver e disparou contra os alemães enquanto tentava fugir. Os boches revidaram e Luke foi atingido mortalmente, nessa altura ele era o piloto da força aérea americana com mais vitórias (18). O capitão Gerrard havia conhecido Luke pessoalmente e admirava sua coragem, quando soube de sua morte ficou muito arrasado.

A esquadrilha do capitão Gerrard foi enviada de volta a Paris para desfrutar alguns dias de licença. Eles foram recebidos como heróis, porém Gerrard não se sentia como tal, mas sim um fracassado que permitira que um aviador alemão matasse seu amigo Maurice Boyay. O capitão voltou para os braços de sua amada Roxanne e de seu filho Richard, para tentar recuperar-se das tragédias pelas quais passou.

No dia 26 de setembro, os exércitos reunidos (Americano, Britânico, Francês e Belga) levaram a cabo a grande ofensiva final contra os alemães. No dia 28 de setembro, o general Ludendorff havia perdido totalmente o controle e aconselhou o general Hindenburg a negociar um armistício com os americanos. No dia 29 de setembro o kaiser Wilhelm, o chanceler Von Hertling e o secretário de relações exteriores Von Hintze decidiram procurar os aliados para negociar o armistício, baseado nos 14 pontos propostos pelo presidente americano George Wilson, no qual uma paz honrosa poderia ser oferecida a todos os combatentes.
Os búlgaros estavam desgastados com a guerra e descontentes com os alemães. Uma ofensiva aliada contra a Macedônia destruiu as forças búlgaras e logo o país se viu invadido. Soldados e camponeses aproveitaram a catástrofe e se uniram numa insurreição, então marcharam para a capital (Sofia) para instaurar uma República. No dia 30 de setembro, tropas alemãs e cadetes búlgaros derrubaram a insurreição. No mesmo dia, a Bulgária foi obrigada a assinar um armistício com os aliados.

O czar búlgaro Ferdinando teve que abdicar do trono e fugir para a Alemanha, os aliados permitiram que seu filho Boris tomasse o trono em seu lugar como czar Boris III. A República não foi permitida a população búlgara, que continuou sobre os poderes da Monarquia permitida sobre os olhares dos Aliados.

Depois da batalha de Caporetto, os soldados italianos se viram livres da terrível ditadura do general Cadorna, e passaram sob o comando do Primeiro Ministro Orlando. A Itália conseguiu se reorganizar graças às tropas britânicas e francesas que foram enviadas para o local, e logo rechaçaram os austríacos na batalha de Vitório Venetto.

Depois da derrota, o barão Conrad Von Hötzendorff foi obrigado a deixar o comando das tropas austríacas. Diante da terrível situação, o rei Carlos buscou meios para manter seu Império e procurou o Presidente Wilson para tratarem de um armistício, entretanto, os sérvios, croatas e eslovenos haviam declarado Independência formando um governo provisório (Iugoslávia). A onda começou a se alastrar...

No final de setembro, o 1° Exército americano, formado graças aos apelos do general Pershing chegou à linha Mosa-Argonne, ele havia sido deslocado 95 km de  Saint  Mihiel  sob  as  ordens  do  marechal  Ferdinand  Foch, a  intenção  era  capturar as  linhas  de  abastecimento  ferroviário  dos  alemães. Em Argonne as forças eram formadas por dois  exércitos  franceses, o 2º sob o comando de  Hirschener, e o 4º sob  liderança  do  general  Henri  Gouraud,  e três Corpos de combate americanos, 1º Corpo sob  Hunter  Liggett, o 3º  sob  Robert L. Bullard, e o 5º  sob George H. Cameron. Os americanos deviam passar pelo rio Mosa e varrer os alemães da Floresta de Argonne, uma região repleta de grandes árvores e terríveis desfiladeiros. Contavam com o apoio de  700  tanques  e  400  canhões.

O local era fortemente defendido pelos alemães com metralhadoras colocadas em pontos estratégicos, havia muito arame farpado e tropas equipadas com lança-chamas. Os franceses e americanos conseguiram avançar cinco quilômetros.

O 1º Exército britânico comandado pelo general  Horne, e o 3º sob  comando  do  general  Julian  Byng  atacaram  Cambrai  em  27  de  setembro. No dia 28 foi realizado um massivo ataque  aliado  em  Ypres; franceses, belgas e canadenses sob o  comando  do  rei  Alberto da  Bélgica  com  o  apoio  do  general  francês  Jean-Marie  de  Goutte. No dia 29 o 4º Exército  britânico  sob  o  comando  do  general  Rawlinson  e  o  1º  Exército  francês  sob  o  general  Debeney  deram  um  golpe  fatal  contra  os  alemães  em  Ypres. Depois de quatro anos a região de  Flandres  passava   para as mãos  dos  aliados.

Para romper a Linha Hindenburg, o 4º Exército britânico sob o comando do general Rawlinson cumpriu a  dificílima  tarefa  de  ultrapassar  o  canal  de  Saint-Quentin, uma  faixa  de  canal  de 11 metros de largura por 20 m de profundidade. Após um bombardeio de dois dias, australianos e americanos avançaram perdendo 7.000 mil  homens. O 5° Exército britânico avançou com 141 tanques com o apoio de mil metralhadoras e 216 canhões. A infantaria atravessou o canal de Saint-Quentin com boias.

Essa ofensiva provocou a queda da Linha Hindenburg no dia 02 de outubro.  No dia 04 de outubro, o 4º Exército  britânico venceu em Beaurevoir. Na retaguarda das principais posições da Linha Hindenburg mais de cinco mil alemães foram feitos prisioneiros.

No dia 02 de outubro, após alguns avanços, o general de Divisão Americana Robert Alexander havia dado ordens para capturar uma estrada em Char levaux perto da Floresta de Argonne. Depois de um bombardeio preliminar seus homens avançaram com duas brigadas, uma delas a 153ª foi parada pelos alemães, entretanto, a 154ª continuou avançando.

O 1° Batalhão do Regimento 308º liderava a Brigada 154ª, seu comandante era o major Charles Whittlesey, um advogado de Wall Street. O major Whittlesey foi auxiliado pelo capitão Macmurtry, que comandava outro grupo de americanos. Eles avançaram contra os alemães sofrendo 90 baixas, porém renderam 30 alemães e capturaram três metralhadoras.

Os americanos estavam num terreno difícil com um profundo desfiladeiro com vários precipícios escondidos por arbustos. O major Whittlesey e o capitão Macmurtry somavam 550 soldados americanos. Eles pensavam que outras unidades americanas estavam logo atrás e que os batalhões franceses também haviam obtido sucesso e aproximavam-se para dar apoio.

Entretanto, somente o major e o capitão com seus homens haviam conseguido passar pelos alemães. Logo descobriram que estavam sozinhos e totalmente cercados pelo Exército alemão. A comida havia acabado depois de dois dias e a munição estava quase no fim. Mesmo diante de uma situação tão difícil o major deu ordens para os soldados manterem a posição custasse o que fosse preciso.
Alguns pombos foram soltos com mensagens de socorro ao general Alexander, precisavam urgentemente de provisões para conseguir manter a posição. Dois pombos obtiveram êxito e a mensagem chegou ao general americano. Logo, os homens do major começaram a sofrer ataques dos alemães. Metralhadoras, morteiros e artilharia dizimavam os americanos, porém com incrível intrepidez conseguiram barrar os alemães e manter a posição.

Duzentos americanos já haviam sido mortos ou estavam gravemente feridos. Diante do desespero o major lançou outro pombo pedindo que o suprimento fosse enviado por aviões. Ele percebeu que a ajuda não podia vir por terra.
A notícia do cerco em Argonne espalhou-se pela Frente Ocidental, os rumores eram de que um batalhão americano estava perdido e cercado por alemães na Floresta de Argonne. Os jornais americanos começaram a explorar a bravura de seus compatriotas. Diante da popularidade do Batalhão Perdido, o general Pershing foi compelido a ordenar que  Alexander fizesse de tudo para que os homens de Whittlesey segurassem sua Linha, não importando o que acontecesse.

No dia 03 de outubro, o kaiser alemão Wilhelm nomeou o príncipe Max von Baden a Chanceler, que conduziria as negociações de paz para o armistício. Entretanto Ludendorff superou suas crises nervosas e desafiou o Chanceler sob o pretexto de que o Exército alemão ainda não estava vencido e que os Aliados jamais iriam conseguir penetrar solo alemão. Ludendorff justificava suas derrotas diante da peste espanhola que arrasava suas unidades.

O comandante alemão era orgulhoso e arrogante demais para admitir uma derrota. Toda essa arrogância o levava ao delírio, visto que a Linha Hindenburg havia caído e milhares de americanos se preparavam para atravessar a Floresta de Argonne.

No dia 04 de outubro, muitos soldados americanos presos na Floresta de Argonne já estavam mortos ou feridos (270 homens). O major Whittlesey não se deu por vencido e continuou a soltar pombos para que o batalhão fosse salvo, senão todos correriam o risco de serem dizimados. O general Alexander tentava a todo custo atravessar o cerco alemão para encontrar o Batalhão Perdido, mas não conseguia.

A artilharia francesa começou a disparar para destruir os alemães, mas em vez de acertar o inimigo acabou atingindo e matando os próprios americanos. Restava apenas um pombo de nome Cher Ami, o major mandou soltá-lo na esperança de que seu batalhão fosse poupado da artilharia aliada.

A ave acabou presa numa árvore, mas os americanos conseguiram ajudar o pombo que logo alçou voo para o regimento aliado. Atiradores alemães dispararam contra o animal destroçando uma perna, furando seu tórax e cegando um olho. Ele quase caiu, mas num esforço extremo conseguiu alcançar seu objetivo, e a mensagem foi recebida nos tendões expostos da ave.

Mais de oitenta americanos haviam sido mortos ou feridos pela artilharia francesa. Se o pombo Cher Ami não tivesse chegado para informar e interromper a artilharia, provavelmente o Batalhão Perdido teria sido inteiramente dizimado. No dia 05 de outubro, os pilotos aliados tentaram lançar suprimentos pelo ar. Porém a neblina, a fumaça e as árvores tornaram impossível, visto que os pilotos jamais identificariam o local do Batalhão Perdido para lançar as provisões. Mesmo assim um piloto americano tentou o impraticável, mas a aeronave foi atingida pelos alemães e as provisões caíram fora do alcance do Batalhão Perdido.

Os alemães realizaram contra-ataques terríveis com granadas, pela Sturmtruppen. Ainda assim os americanos resistiam. Alguns soldados começaram a ser derrotados pela fome e então passaram a comer folhas e cascas de árvores. Para piorar a situação, não havia mais água.

O major enviou dois soldados corredores para alcançar o Regimento de Alexander e passar informações de onde o batalhão estava. Esses homens quase foram mortos pelos alemães. Entretanto conseguiram alcançar o Regimento do general Alexander com informações precisas sobre a posição do inimigo, que deveria ser imediatamente rechaçado pela artilharia.

Alguns homens estavam desesperados de fome e sede, tentavam achar os suprimentos lançados pelo avião, mas alguns acabaram mortos e outros capturados pelos alemães.Um oficial alemão que falava inglês pediu a um dos prisioneiros americanos que escrevesse um recado ao major Whittlesey, no qual deveria se render, visto que era desnecessário o enorme sofrimento de seus homens. Ao receber o recado o major não respondeu ao apelo, estava decidido a não se render.

No dia 07 de outubro diante da negativa de ultimato, os alemães lançaram um forte ataque com um batalhão de lança-chamas. Muitos americanos fugiram apavorados, mas o major os impeliu a resistir. Duas das três metralhadoras americanas foram colocadas fora de combate. Porém somente uma conseguiu barrar o ataque das chamas, dizimando os homens que operavam os lança-chamas.

Um dos oficiais americanos que estava muito ferido armou-se com um Colt 45 e atirava nos alemães auxiliando o atirador da metralhadora, depois de matar cinco alemães acabou sendo morto. Os alemães começaram a recuar, pois o general Alexander havia finalmente alcançado os inimigos que fugiam.
Em pouco tempo um regimento americano chegou para socorrer os esfomeados e feridos sobreviventes do major Charles Whittlesey. No final, 194 homens ainda estavam de pé, 107 mortos e 190 gravemente feridos. Sessenta e três homens nunca foram encontrados, foram despedaçados ou feitos prisioneiros que nunca se obteve notícias. No fim, a heroica resistência se espalhou pelas colunas britânicas trazendo uma força e ânimo nunca visto.


No dia 08 de outubro, ainda na Floresta de Argonne, outra ação heroica ficou muito conhecida. O sargento York iria marcar o Exército americano para sempre...

Durante a manhã, os alemães mandaram um ataque com granadas de gás, os americanos colocaram as máscaras de gás e continuaram em frente. Através das granadas chegaram ao topo de um morro, os alemães dispuseram suas metralhadoras para atacar os americanos e mataram quase todos. O momento foi horrível, as perdas foram muito pesadas, o avanço americano foi obrigado a parar e cavar para entrincheirar-se.

Nenhuma barragem de artilharia americana podia ajudá-los e as metralhadoras e granadas alemãs estavam dizimando os soldados americanos. O soldado York juntamente com mais alguns americanos decidiram pegar as metralhadoras de surpresa atacando pela retaguarda. Havia mais de trinta delas e estavam escondidas entre os morros ao redor. Então dezessete americanos foram por trás do flanco esquerdo para colocar as metralhadoras fora de combate.

A maioria dos americanos acabou morrendo, somente o cabo York que foi obrigado a assumir o comando e mais alguns homens conseguiram chegar num quartel general alemão, onde um major comandava. O major alemão e mais alguns soldados foram rendidos pelo cabo York, entretanto outros alemães apareceram e uma luta encarniçada começou.

O major alemão garantiu que se o cabo York poupasse sua vida ele daria ordens aos atiradores para parar, e foi o que aconteceu. Muitos foram se rendendo graças às ordens do major alemão. Antes da rendição o cabo York já havia matado mais de vinte alemães. Vários boches foram jogando suas armas e cinturões no chão, quase cem soldados alemães haviam de rendido. Entretanto um deles investiu uma granada contra o cabo York, ele conseguiu matá-lo com um tiro. O cabo York decidiu então levar todos aqueles homens como prisioneiros.

Os alemães foram colocados em fila dupla e foram obrigados a marchar direto para as outras metralhadoras que também se renderam. O cabo York ainda deu ordens para que os soldados alemães carregassem os feridos americanos que estavam pelo caminho.

De repente mais metralhadoras alemãs começaram a disparar, mas o major alemão assoprou um apito transmitindo ordens de rendição, nem todos se renderam e o cabo York foi obrigado a matar mais um alemão. Havia  mais de cem prisioneiros, era um problema levar eles com segurança de volta para as linhas americanas. Tinham tantos deles que havia o risco da artilharia americana pensar que fosse um contra-ataque alemão e abrir fogo em cima do cabo York e dos seus homens.

Felizmente encontraram mais americanos pelo caminho, e todos caminharam para o posto de comando com 132 prisioneiros alemães, que foram entregues para a polícia do Exército americano. Depois disso o cabo York foi enviado com seus homens para capturar o objetivo principal, a ferrovia Decauville. O cabo York tinha plena consciência de que fora Deus quem entregara em suas mãos os prisioneiros alemães.

Antes da guerra, York havia sido devoto à Deus e trabalhado numa igreja por algum tempo. A ação que culminou na rendição dos alemães foi realmente um milagre divino, pois todos os arbustos em volta do cabo York haviam sido destruídos, mas ele ficou intacto. O cabo York confiava plenamente em Deus.

No dia 09 de outubro York foi enviado para a Floresta de Argonne com alguns maqueiros, pra ver se havia mais algum americano vivo, mas todos estavam mortos. E havia vinte e oito alemães mortos, justamente o número de tiros que o cabo York havia disparado. Havia ainda trinta e cinco metralhadoras alemãs e muitos equipamentos e armas portáteis.

O sucesso deste assalto teve grandes efeitos em aliviar a pressão inimiga contra as forças americanas no coração da Floresta de Argonne. Logo o cabo York foi promovido a sargento. A heroica história do sargento York se espalhou por toda parte, ele ficou famoso como o maior herói do Exército americano. 

No dia 09 de outubro, os alemães foram expulsos de Cambrai. No dia 14, o rei Alberto continuou os avanços em Flandres, com apoio do 2º Exército britânico do general Plummer. No dia 20, as tropas de Alberto venceram definitivamente os  alemães  no rio  La  Lys.


O capitão Gerrard viveu dias felizes em sua estância, porém tudo passara tão depressa que não sabia se fora um sonho. Sua esquadrilha foi enviada de volta ao front, nas proximidades de Verdun, para continuar combatendo o Grupo 2 de Caça Alemão.

Gerrard conhecia muito bem o horror das trincheiras, 99% dos pilotos não sabiam realmente o que os pobres soldados passavam. Gerrard sobrevoava as linhas de combate em Verdun onde soldados franceses operavam, e olhando para baixo dizia a si mesmo:

– Pobres coitados! Eu durmo bem, como bem! Livro meus  maus  pensamentos com cigarro, café, bebidas e muita música, mas esses pobres poilus chegam a passar fome lutando para abrir uma lata de carne em conserva.

 O capitão Gerrard e seus pupilos viviam como uma família de oficiais. Não eram esquecidos nas profundezas das lamacentas trincheiras. Gerrard sentiu pena daqueles pobres coitados. Vista do alto a região de Verdun parecia uma enorme mancha escura de lama misturada com sangue e cadáveres. As esquadrilhas estavam dando suporte ao Exército francês e americano que combatiam os alemães na Floresta de Argonne. Durante o mês de outubro, os combates contra os alemães continuaram...

O mês de Outubro foi muito trágico para a Força Aérea Francesa. Roland Garros, um pioneiro da aviação e importante figura militar havia ficado três anos no cativeiro da Alemanha, entretanto acabou conseguindo escapar e foi incorporado na esquadrilha Stork 26, pilotando o caça Spad. Entretanto o combate aéreo havia mudado muito nos últimos três anos. Roland Garros tentou derrubar inimigos, mas não conseguia, e por isso arriscava-se cada vez mais. Por fim, no dia 15 de Outubro de 1918 acabou sendo abatido e morto por um piloto alemão.

O ás Georg von Hantelmann da Jasta 15, continuou adquirindo vitórias sem que Gerrard conseguisse abatê-lo. A guerra estava praticamente acabada para os alemães, a esquadrilha do capitão Gerrard foi transferida para um local mais calmo, um aeródromo perto de Paris...

Na madrugada do dia 23 de outubro de 1918, tudo parecia sereno no aeródromo onde a esquadrilha de Gerrard estava estacionada, os pilotos dormiam tranquilamente. Às 04h da madrugada, Gerrard foi acordado em seus aposentos recebendo ordens terríveis... Todos os pilotos de sua esquadrilha reuniram-se em poucos minutos, e aguardavam as ordens em frente suas aeronaves. Com passos firmes Gerrard anunciou;

– Observadores informaram que uma grande formação de bombardeiros e dirigíveis Zepelins estão se aproximando. Há tempos não ouço falar de dirigíveis alemães. Esse fato me leva a crer que a Alemanha no desespero, está lançando tudo que têm contra nós. Acredita-se que essa formação pretenda atingir Paris, já que a Alemanha não pode ganhar a guerra. Os alemães querem atingir o coração da França para amenizar a lembrança da derrota, nós não vamos permitir. Nossa esquadrilha foi escolhida apara interceptar os dirigíveis e os bombardeiros. Seremos apoiados por duas esquadrilhas francesas e três americanas. Esses bombardeiros, com certeza serão protegidos por caças do JG2 e JG3 (Grupos 2 e 3 alemães) - quem lidera esses grupos são pilotos experientes (Oskar von Boenigk - um ás com 26 vitórias e Bruno Loerzer com 44 vitórias) juntos formam mais de cem aviões de caça. O JG2 nós já conhecemos. Aquele maldito piloto da Jasta 15, Von Hantelmann tem se tornado uma pedra em meu sapato. O JG3 ou Circo Loerzer, como é mais conhecido também pode vir a ser um grande problema para nós, já que não os conhecemos. Quinze esquadrilhas inglesas e canadenses (180 aviões) serão enviados para interceptar os caças alemães. Nós devemos partir agora para derrubar os bombardeiros e dirigíveis, procurem evitar duelos com os caças alemães. Nossos alvos são os bombardeiros. O Alto Comando Aéreo desconfia que o JG2 e JG3 atacarão em conjunto, se isso acontecer encontraremos com nossos irmãos ingleses.

A esquadrilha de Gerrard estava equipada com munições incendiárias para derrubar os dirigíveis Zepelins. A frase de  Roxanne antes de se despedir não saía de sua cabeça (Não vá Gerrard! Estou com um mau pressentimento!). Gerrard não podia voltar atrás...

O capitão pegou sua jaqueta, óculos de aviador, capacete de couro, e aproximou-se de seu avião verde oliva com a inscrição ”Roxy”. Ele entrou na carlinga e avistou Razan no seu avião com a insígnia do demônio Belphégor (o deus da guerra na França).

Logo decolaram e entraram em formação. Começaram então a sobrevoar a capital francesa. Gerrard vislumbrou a Torre Eiffel abaixo de si, estava tão perto que quase a tocou. Paris ficou para trás. No horizonte, à sua esquerda, Gerrard avistou as outras duas esquadrilhas francesas se aproximando. Em poucos segundos todos passaram a voar juntos. Logo surgiram os Spads americanos com cores garridas que lembravam sua bandeira americana. Uma formação de caças desbravava as nuvens para interceptar os inimigos.

Poucos minutos depois, uma enorme nuvem de aviões foi avistada, era tão grande que cobria o céu. Eram caças Camel e Snipes, as esquadrilhas inglesas e canadenses tomaram a frente de combate, sua missão era proteger os caças americanos e franceses dos pilotos alemães. 

Em pouco tempo mais de 250 aeronaves aliadas sobrevoavam as trincheiras em grande formação, essa visão magnífica era indescritível para Gerrard, ele não sabia o que realmente ia enfrentar, tinha a sensação de que fora enviado para o inferno. Aquela, com certeza, era a maior missão aérea de sua vida e talvez a última. Em Saint Mihiel havia muito mais aviões, mas não tantos num único voo como dessa vez.

 Vários Bombardeiros Gotha e dois enormes Bombardeiros Staaken foram avistados, os dirigíveis Zepelins estavam acima deles. As presas alemãs pareciam fáceis e logo os Spads americanos e franceses se lançaram contra eles. Os caças franceses concentraram sua força contra os quatro enormes dirigíveis, enquanto os americanos atacavam os bombardeiros.

De repente uma grande nuvem negra surgiu como se tivesse saído do sol, eram as oito esquadrilhas de caça do JG2 e JG3, que surpreenderam os aviões aliados escondendo-se atrás do sol. Cem aviões de cores garridas apareceram como se fosse do nada, atirando como loucos nos aliados. Logo os caças ingleses começaram a repelir o ataque alemão, as primeiras vítimas do combate começaram a cair.

Foi a pior visão da vida de Gerrard, ele via fogo no céu e nuvens de bala por toda parte. Aviões despedaçavam-se uns contra os outros, hélices, asas e pilotos eram arremessados por toda parte. Gerrard viu alguns bombardeiros caírem em chamas. O capitão disparava sem parar quando percebeu que os quatro dirigíveis estavam conseguindo atravessar a barreira. Sobrevoavam intactos à grande altitude.

Gerrard conseguiu arremessar sua aeronave o máximo que pôde e disparou balas incendiárias contra um Zepelim que logo explodiu em chamas. Os aviões azuis da Jasta 15 de Georg von Hantelmann lançaram-se contra Gerrard, entretanto Razan e os outros pilotos franceses brigavam com a esquadrilha alemã. Cinco aeronaves Fokker DVII da Jasta 15 mergulharam contra quatro Spads franceses. Georg von Hantelmann estava entre os cinco, parecia que iam chocar-se com os franceses, mas todos acabaram desviando, mas as rajadas de metralhadora não desviaram.

As balas rasgaram os aviões. Gerrard olhou de soslaio e vira fogo em duas aeronaves; fumaça e pedaços de asas por toda parte. Ele conseguira atravessar o escudo aéreo inimigo, mas cinco aeronaves caíram; dois Fokkers e três Spads. Arriscou olhar novamente e avistou o demônio Belphégor no avião de Razan. Ambos passaram a voar juntos e foram atacados pelo fogo da metralhadora de um dirigível, porém com rajadas incendiárias Razan conseguiu atingir o enorme balão que cobriu o céu de chamas.

Gerrard e Razan fizeram a volta para destruir os outros dois dirigíveis. Perceberam que quase todos os bombardeiros haviam sido destruídos, e que caças britânicos e americanos estavam dispersando e perseguindo os caças alemães. Notaram também que o resto de sua esquadrilha entrava em duelos individuais contra experientes pilotos da JG2 e JG3 - aviões de cores berrantes (azul, vermelho, amarelo) davam aos duelos algo muito pitoresco.

Gerrard e Razan não poderiam deixar seus camaradas de refrega sozinhos, então deixaram os dirigíveis e lançaram-se também nos duelos. Depois de alguns minutos de terríveis dogfigths, todos os membros da esquadrilha de Gerrard foram abatidos. Os dois dirigíveis Zepelins acabaram derrubados por caças americanos.

Gerrard e Razan avistaram um titânico bombardeiro Staaken que tentava escapar. As cruzes negras e sua coloração azul e verde  pintadas  como  um  tabuleiro  de  xadrez  provocavam  uma  forte  impressão. Os dois franceses então voaram sobre ele disparando rajadas de metralhadora. A aeronave era tão poderosa que continuava voando incólume. Os pilotos e atiradores alemães estavam protegidos pela cabine fechada do bombardeiro, dificilmente seriam atingidos.

O bombardeiro Staaken era construído pela Zeppelin, tinha mais de 42 metros de envergadura, carregava duas toneladas de bombas. O avião era considerado indestrutível, os alemães o chamavam “Riesenflugzeug” (aeronave gigante). Razan e Gerrard se viram em apuros, pois os atiradores alemães do bombardeiro haviam crivado suas aeronaves de balas.

Gerrard começou a fazer sinal para Razan que entendeu a estratégia do capitão. Passaram então a voar quase colados um no outro e dirigiram o fogo de suas metralhadoras contra a asa esquerda do poderoso bombardeiro, nada parecia surtir efeito. Gerrard não se deu por vencido e continuou atirando até gastar toda a sua munição.

De repente a asa do poderoso Zepelim Staaken começou a se partir. Em poucos segundos, o invencível avião começou a mergulhar em chamas, sumindo na imensidão das nuvens. Entretanto, no afã de sua vitória, Gerrard não percebeu que um Fokker azul com uma caveira desenhada na fuselagem colocou-se atrás de seu Spad. O avião azul mergulhou sobre Gerrard disparando vários tiros, crivando seu Spad de balas.

O capitão não conseguia se defender, pois estava sem munição, o Fokker continuou atirando até que Gerrard acabou levando um tiro de raspão na cabeça. Era Georg von Hantelmann quem o atingira. Ele engatilhou sua metralhadora e enquadrou o Spad verde em sua mira novamente, era o fim de Gerrard de Burdêau.

Milagrosamente surge Razan Stocker na traseira de Hantelmann e dispara contra ele, danificando seu Fokker seriamente, forçando-o a abandonar a refrega. Razan percebeu que Gerrard enfrentava sérios problemas, tentou escoltá-lo para as Linhas de Segurança, mas o perdeu entre as nuvens...
Gerrard estava ferido na cabeça e perdeu os sentidos ficando debruçado de lado. Abriu os olhos e avistou abaixo de si uma paisagem lunar, trincheiras sem fim cobertas de lama e sangue, uma visão terrível do inferno.

 O capitão começou a gritar e chorar desesperadamente enquanto as lágrimas cobriam-lhe o rosto. Naquele momento odiou os próprios olhos. Para fugir daquela imagem infernal acabou por virar-se para frente e começou a admirar seu belo Spad pintado de um verde tão brilhante que lhe ofuscava as vistas. Gerrard repudiava a guerra, mas amava aquele avião; era como se fosse uma extensão do seu corpo. A grande paixão do capitão era voar, e que grande honra era morrer ao lado do seu pássaro de guerra, companheiro das horas mais difíceis.

O capitão olhou para cima e vislumbrou uma imensidão azul com nuvens esparsas, as lágrimas então cessaram e o capitão começou a sorrir, pois seus olhos estavam diante dos céus. Lá em baixo os homens pintavam a terra de sangue, mas ali em cima Deus se superava como pintor.

O sangue que escorria do ferimento de Gerrard cobriu os seus cabelos e foi tirando suas forças enquanto ainda sorria. O avião deixou de planar e começou a mergulhar enquanto rasgava as nuvens. Era a melhor morte que Gerrard de Burdêau poderia ter desejado; morrer enquanto voava e admirava a obra de Deus.

O belo Spad verde desapareceu no meio das nuvens sobre os céus de Verdun. Razan não pôde procurá-lo por muito tempo, pois seu avião estava seriamente danificado, então retornou para as Linhas Aliadas.

O dia passou sem que tivessem notícias de Gerrard. Embora o Comando Aéreo não quisesse admitir, todos sabiam que o grande ás francês Gerrard de Burdêau estava morto...




Max Wagner tem 40 anos, nasceu e foi criado em Ribeirão Preto-SP, atualmente mora perto de Fernandópolis-SP, é casado e pai de três filhos, cursou Letras, mas não terminou o curso, depois graduou-se em História pela Unifran. O escritor é poeta, romancista, historiador, e editor-fundador da Maxibook editora e livraria. Há vinte anos pesquisa sobre as duas guerras mundiais, autor do romance “A Última Poesia” que retrata a Primeira Guerra Mundial, publicado pela Chiado Editora de Portugal. Coautor da  Bíblia Comentada Chapter a Day – O Velho Testamento do canadense Norman Berry.

É membro correspondente da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto, Casa do Escritor e do Poeta de Jales, e dos Médicos Escritores e Amigos de Ribeirão Preto, já participou de algumas antologias e da Feira do Livro de Ribeirão Preto 2014, 2015 e 2016, Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2016, Feira do Livro de Jales 2016.

 É colunista da Saga Literária, um site que escreve resenhas para várias editoras, e do Frontcast, um grupo de historiadores que grava entrevistas sobre literatura e história militar. Também Possui um blog onde escreve sobre seus livros, história militar, literatura e cinema. Foi um dos vencedores do Prêmio de Poesia Moderna do Comércio de Ribeirão Preto.

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