segunda-feira, 26 de junho de 2017

A BATALHA DO AISNE E OS MOTINS


             Há cem anos, por muito pouco a França não perdeu a Primeira Guerra Mundial. Trecho do romance A Última Poesia – Do Orgulho Nasce a Guerra de Max Wagner.


Desde setembro de 1916, os alemães detinham superioridade aérea contra os aliados, por causa da formação de suas esquadrilhas de caça. Principalmente pelo comando de Manfred von Richthofen.  Em abril de 1917 durante a ofensiva britânica de Arras que era o assalto preliminar para a Batalha do Aisne, o Circo Voador do Barão Vermelho infligiu uma grande derrota na Força Aérea Britânica. Ficou conhecido como Abril Sangrento. Custaram pesadas perdas ao Royal Flying Corps (RFC) em relação aos seus oponentes alemães da Luftstreitkräfte.

Para a batalha o RFC possuía 385 aeronaves contra 114 alemãs. Achavam que venceriam fácil, mas não foi o que aconteceu. As diferenças táticas, tecnológicas e de treinamento entre os dois lados com vantagem dos alemães, levaram os britânicos a sofrerem perdas de quatro vezes mais que os alemães.

A derrota foi tão desastrosa que abalou a moral de todas as esquadrilhas, o RFC perdeu um terço de toda sua força aérea. Apesar disso, contribuíram para o sucesso da campanha terrestre em Arras. A força aérea germânica restringia suas operações ao território "amigo", com isso reduzindo a possibilidade de perdas de pilotos e aumentando a quantidade de tempo que eles podiam permanecer voando. Mais do que isso, eles podiam escolher quando e como entrar em um combate aéreo.

Os britânicos perderam 275 aviões somando 207 mortos, somente a Jasta 11 de Richthofen abateu 89 aeronaves, os alemães perderam apenas 66 aeronaves. A batalha de Arras foi um ataque inicial  para que os franceses atacassem no Aisne, sob o comando do general Nivelle.

                   
A guerra atingira um impasse sem solução na França. Por três anos, os inimigos vinham se defrontando na Terra de Ninguém. As tropas esgotavam-se numa série de ofensivas ineficazes. Nesta batalha de atrito, a França sofreu mais que qualquer outra nação. A guerra não só estava sendo travada em solo francês como também suas perdas humanas foram mais pesadas. As baixas totalizavam cerca de 2,25 milhões de homens. O desgaste da nação se fazia sentir. Os soldados e os civis estavam totalmente desiludidos.

O comandante Joseph Joffre de 64 anos, comandante-chefe do Exército francês foi combatido por deputados franceses. Forçaram o primeiro-ministro francês, Aristide Briand, a demiti-lo. Joffre recebeu o título honorífico de Marechal da França e foi colocado no posto de conselheiro militar do governo e substituído pelo general Nivelle.

O general Nivelle era um ativo membro da artilharia, tinha sessenta anos, alcançara fama como comandante em Verdun, ele acreditava ter a fórmula infalível para a vitória. Nivelle provocou tumulto, ao reformar bruscamente os planos para uma ofensiva aliada de 1917. Ele planejou um assalto francês maciço num setor de 50 quilômetros, em Soisson-Reims, flanqueando o rio Aisne.

Quase um milhão de homens participaria da ação: uma força de três Exércitos franceses. Esta concepção contrariava todo o pensamento militar. Nivelle depositava sua confiança num rápido ataque de surpresa. Todo o setor, mantido por dois anos pelos alemães, era coberto de fortificações, com canhões e armas automáticas.

Um frio terrível desceu sobre a Frente Ocidental, retardando os preparativos para a ofensiva, intensificando o sofrimento das tropas, que se amontoavam em suas trincheiras geladas, e deprimindo seu moral já baixo. Em seguida, todo o plano de Nivelle foi ameaçado por uma importante retirada alemã. Os alemães começaram a se retirar do setor de 144 quilômetros de Arras-Noyons-Soisson (a oeste da linha Soisson-Reims) para a fortemente defendida Linha Hindenburg.

Conforme prosseguiam os preparativos junto ao rio Aisne, no intenso frio, fora perdido um elemento essencial para o sucesso francês: a surpresa. Era impossível esconder do inimigo os preparativos. O desânimo estava no seu ponto mais alto. Foi quando Nivelle conseguiu uma vitória psicológica. Produziu uma espetacular mudança de ânimo no Exército por meio de um esforço concentrado para elevar o moral. O desânimo desapareceu, a disciplina e a postura melhoraram.

Quase não existiam medidas de segurança em relação à ofensiva. Era discutida abertamente e com grande otimismo. O general Alexandre Ribot e seus colegas estavam tão preocupados que, no dia 06 de abril de 1917, reuniram um conselho de emergência, em Compiégne, para decidir se o ataque deveria acontecer conforme o planejado.

O presidente francês Raymond Poincaré, ministros e chefes do Exército, se reuniram no trem do presidente. Todos manifestaram suas dúvidas a respeito da ofensiva. Nivelle defendeu o sucesso da ofensiva. Percebendo que não conseguira apoio, se demitiu.

Sem alternativas, o presidente Poincaré apressou-se em reafirmar a Nivelle a confiança do governo, e deu-lhe responsabilidade para continuar com a ofensiva. Nivelle alcançara seu objetivo e ordenou um ataque preliminar britânico em Arras e depois de uma semana, na madruga de 16 de abril, o assalto geral foi lançado.

Cinco mil canhões dispararam milhares de projéteis, mesmo assim foi um desastre, 40 mil franceses morreram no primeiro dia. Desde as primeiras horas o fracasso ficou evidente, tropas francesas tentaram cortar o arame farpado, mas foram massacradas pelo fogo das posições inimigas, e pelo fogo mal orientado dos próprios canhões franceses de 75 milímetros.

Em quinze dias o ataque já tinha acabado. Em vez da prometida ruptura das linhas inimigas, as tropas de Nivelle conquistaram uns poucos quilômetros de terreno ao preço de quase 200.000 baixas. A nova euforia entrou em decadência total. A reação foi uma catástrofe, os homens de Nivelle se revoltaram. Elementos de 54 divisões se recusavam a obedecer a ordens, realizavam demonstrações, desertavam, clamavam pela paz, brandiam bandeiras vermelhas, ameaçavam ou tentavam marchar contra Paris para derrubar o governo.

O futuro da França parecia estar selado, a Alemanha provavelmente venceria a guerra em pouco tempo. Os americanos haviam declarado guerra à Alemanha, mas provavelmente não chegariam a tempo de salvar os aliados.

O marechal Jofre ganhou força com a derrota de Nivelle, e foi encarregado de chefiar a Delegação Francesa que viajou aos Estados Unidos para planejar a salvação da França com o general John Pershing, comandante da Força Expedicionária Americana; que lutaria contra os alemães na Europa.

No momento mais grave, apenas duas divisões francesas de confiança estavam postadas entre Soissons e Paris que ficava 96 quilômetros de distância. Por incrível que pareça, os alemães não souberam das insurreições. Se o Exército alemão tivesse reagido, o curso da guerra teria sido alterado de maneira terrível. Os alemães descartaram as informações que receberam através de agentes secretos ou prisioneiros que escaparam dos franceses.

O motim foi tão bem camuflado que nem mesmo os aliados britânicos souberam, a verdade é que desde o início da guerra, franceses e ingleses agiam como se não fossem aliados, eram forças independentes que disputavam entre si a glória de derrotar o Império Alemão.

Houve desordens em trens militares em estações de estradas de ferro. A primeira eclosão teve lugar a leste de Reims, onde, ao ser mandado de volta à linha de frente, depois de apenas cinco dias de descanso, um regimento de infantaria se recusou a partir. A desordem tomava conta das oito divisões que haviam lutado em Chemin des Dames. Um dos motins envolveu um regimento de infantaria de elite, que havia lutado bravamente em Verdun e, desde então, tinha estado constantemente em ação.

No início de junho, os motins foram piores. No dia 1º de junho, um regimento perto de Tardenois que também tinha boa folha de serviços foi mandado para frente de batalha depois de um breve período de descanso. Cantando a Internacional (hino da Revolução Russa), os soldados marcharam em direção à Prefeitura local, protestando. O levante era um protesto espontâneo de tropas desesperadas, e não uma insurreição planejada. Muitos soldados se viam a si mesmos como grevistas, não como amotinados.

As tropas francesas já tinham uma longa lista de queixas, relacionada com as enormes perdas desnecessárias, disciplina dura, péssimas condições de bem-estar. O fracasso do Aisne foi o limite para uma insurreição. As tropas de combate não tinham mais forças. Era um Exército sem fé, os motins foram encorajados pela Revolução Russa, que abalou o mundo em março. Até o fim de junho, tinham ocorrido mais de 170 interrupções de trabalho nas fábricas de material de guerra de Paris e das províncias.


O salvador de Verdun, general Pétain foi nomeado para restaurar a paz no Exército. Os contatos pessoais dele com as tropas ajudaram muito. Durante essas semanas, seu carro deixava o QG, em Compiégne, para uma visita geral às formações do Exército. Em cerca de trinta dias visitou noventa divisões. Ele era um homem alto, com seu bigode e olhos azuis; falava individualmente com soldados, ouvindo suas queixas e sugestões.

Pétain tinha 61 anos de idade, ficara famoso como o salvador de Verdun, era o homem certo para substituir Nivelle como Comandante do Exército. Seu método de tratar os motins foi uma mistura de firmeza e humanidade. No início, Pétain tratou de liquidar a desordem e punir os líderes. Fortaleceu a autoridade de seus oficiais, tomou medidas para conter o alcoolismo, um poderoso fato na inflamação das revoltas. Furioso com o fracasso do governo em reprimir os grupos derrotistas, atacou os ministros com exigências para que agissem.

Finalmente os homens sentiam que alguém se preocupava com seus interesses, que eram considerados como seres humanos. No fim do verão, o Exército francês começou a ser recomposto. Enquanto muitos dos amotinados condenados receberam penas pesadas, apenas 55 dos 412 condenados à morte, entre maio e outubro, foram executados.

Agora era necessário reprimir a frente interna. O velho Georges Clemenceau emergiu do isolamento político para tornar-se o Primeiro-Ministro. Clemenceau era um líder de outro tipo, um inimigo de todos os elementos que considerava antipatrióticos, não temia partido ou facção. Começou a reprimir os grupos que considerava derrotistas. No fim, Pétain e Clemenceau salvaram a França  da  derrota  total.



Alexandre Ribot


General Nivelle


Georges Clemenceau


                                    Manfred von Richthofen no filme Red Baron


                                         O Circo Voador no combate de Arras




               Aviões alemães e britânicos da ofensiva  de Arras










              Amotinados franceses em 1917



         Imagens reais da batalha do Aisne e algumas ilustrações do                 jogo Batlefield 1 












General Pétain


Presidente Poincaré


Marechal Joffre


Cena do filme Glória feita de Sangue - Soldados franceses são executados sob acusação de covardia.